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domingo, 30 de novembro de 2025

Quando você entrou em mim como um Sol no meu quarto

"Mais uma noite quente de verão. Deitado, olhando pro teto e com um dos braços acima da cabeça, tentei dormir.

Mal fechei os olhos e um cheiro de tangerina invadiu o quarto, junto com um vento que eu não sabia de onde vinha. Abri os olhos e era ela: vinha em minha direção, sua longa saia esvoaçante, os cabelos revoltos pelo vento e trazendo um sol vivo no olhar. Vestia a mesma roupa que exibia sua cintura faceira e me deixou sem reação no último encontro, mas dessa vez, as peças eram alvas.

Assustado, pisquei os olhos e os esfreguei com a mão que eu havia pousado sobre a barriga. Ela se aproximava pé ante pé, como quem brinca na corda bamba. Olhei pro lado pra me certificar de que quem dormia ali não estivesse vendo o mesmo que eu: não havia mais ninguém.

Ela então chegou perto da cama e, com a leveza de uma entidade, se debruçou sobre mim. Olhou dentro dos meus olhos e me farejou como uma onça no cio. Depois foi descendo ao meu peito e me esfregou sua cabeleira como uma gata pedindo afago. Eu não tinha reação.

Queria mandá-la embora, dizer que aquilo era uma loucura: fazer o certo a fazer. Mas ao mesmo tempo, eu só queria mergulhar mais fundo.

Ela então subiu de novo e me encarou face a face. Seu cordão de aço com pingente misterioso escapou de dentro de seu decote e balançava, tocando meu queixo. Respirei do hálito que sua boca exalava como se sugasse minha própria vida.

Uma de suas mãos apoiada acima do meu ombro agarrou meus cabelos e ela desfilava sobre mim aquele aroma delicado. Tudo era irresistível demais pra resisti
r.

– Então, é você a Serpente do meu Paraíso?... – sussurrei. 
Sem parar de dançar sobre mim, respondeu:
– Todo Jardim do Éden tem uma Serpente e um Fruto da Árvore do Conhecimento... Você escolhe o que sou pra você..." – e entre os cabelos me fitou com um semi-sorriso de quem queria testar minha sanidade.

Sanidade esta que perdi nesse momento: a mão que eu tinha pousado sobre a minha cabeça agora agarrava seus cabelos rebeldes pela nuca, e tentava pressionar seus lábios rubros contra os meus. Ela resistia: mostrava os dentes, oferecia a orelha, me olhava como quem estava no comando.

Ainda sobre mim, se desvencilhou e ergueu mais o tronco: pegou minha mão e juntos abrimos vagarosamente o zíper de seu colete, enquanto ela dizia:
– Então... Parece que você fez sua escolha...

Com a voz entrecortada pela respiração ofegante, suspirei e olhei pro alto:
– Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada... – e engoli seco.

Sorrindo como quem vence uma batalha pela minha alma, ela termina de abrir o zíper e orienta minhas mãos pelo seu corpo. Minhas mãos finalmente exploram aquela cintura que tirou meu sono.

Ela continua dançando sobre mim, volta a se debruçar. Me beija e seus gemidos em meu ouvido soam como canto de sereia a me levar pro fundo das águas...

Minha língua então explora as curvas de seu colo: sua respiração intensifica, os suspiros agudizam, seus olhos reviram e seu corpo se abre e se entrega pra mim como se o próprio fato de me trazer de volta à vida a levasse ao êxtase (onde chegamos juntos, num clarão de luz).

Então acordei. Molhado de fluídos que não sei identificar ao certo e buscando sua presença ainda tão presente em meu quarto. Eu queria ficar ainda deitado pra retomar o fôlego, mas olhando aquele outro corpo que dormia ao lado e minha própria situação, achei melhor acelerar uma ducha e vestir roupas limpas. Me senti um adolescente tentando esconder as peças sujas no fundo do cesto, esperando que ninguém reparasse ou comentasse. Não tenho mais idade pra essas coisas...

Voltei a deitar, mas o sono não vinha: queria revisitar aquele cenário, voltar a sentir os cheiros e a pele. E se eu mandasse uma mensagem?...

Longe demais. Deixa pra lá. Uma pena..."

terça-feira, 11 de novembro de 2025

O Coração Selvagem

Havia um hiato de calendários e silêncios que me fez supor a ausência como regra. Mas aquela segunda-feira ignorou meus pressupostos.

Não foi um desses avistamentos furtivos pelos corredores. Dessa vez você parou. O sorriso, com aquela modulação que desarma a pressa, transformou o meu grupo à sua órbita. Enquanto as palavras de Durkheim costumavam me tirar o sono, ali, sob a luz do sol de Niterói, no ângulo exato que transformava sua íris em vitral, o cansaço virou observação participante.

Alguém mencionou a complexidade de outrem, e você, em sua síntese elegante, foi interrompido por um ato falho coletivo — ou melhor, por uma saudade que escapou da boca de outra pessoa mas que, pro meu espanto, trazia o meu timbre. A "declaração de amor acadêmica" serviu de escudo para minha própria mudez. O riso que se seguiu, de timidez mineira, me foi o único "fato social" relevante do dia, me relaxando da tensão de uma adolescente que flagra seu próprio diário violado.

Você se despediu, prometendo-me um de seus dias da semana. Eu, que já decorara o cronograma dos ventos, apenas observei teu recuo, segurando a pasta como quem carrega o tempo de quem quer ficar. No fim, ficamos nós, a "turma do outro bairro" – eles brincando sobre "crushes intelectuais" e eu calando o sobre o essencial. Sobrou Belchior na cabeça, o coração selvagem no peito querendo arriscar a incerteza, mas também a certeza de que certas presenças não precisam de matrícula para ocupar todo o espaço.


Será que um dia descobrirá os beijos que escondi nas dobras do blusão?...


Axé-Shalom-Amen!