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terça-feira, 11 de novembro de 2025

O Coração Selvagem

Havia um hiato de calendários e silêncios que me fez supor a ausência como regra. Mas aquela segunda-feira ignorou meus pressupostos.

Não foi um desses avistamentos furtivos pelos corredores. Dessa vez você parou. O sorriso, com aquela modulação que desarma a pressa, transformou o meu grupo à sua órbita. Enquanto as palavras de Durkheim costumavam me tirar o sono, ali, sob a luz do sol de Niterói, no ângulo exato que transformava sua íris em vitral, o cansaço virou observação participante.

Alguém mencionou a complexidade de outrem, e você, em sua síntese elegante, foi interrompido por um ato falho coletivo — ou melhor, por uma saudade que escapou da boca de outra pessoa mas que, pro meu espanto, trazia o meu timbre. A "declaração de amor acadêmica" serviu de escudo para minha própria mudez. O riso que se seguiu, de timidez mineira, me foi o único "fato social" relevante do dia, me relaxando da tensão de uma adolescente que flagra seu próprio diário violado.

Você se despediu, prometendo-me um de seus dias da semana. Eu, que já decorara o cronograma dos ventos, apenas observei teu recuo, segurando a pasta como quem carrega o tempo de quem quer ficar. No fim, ficamos nós, a "turma do outro bairro" – eles brincando sobre "crushes intelectuais" e eu calando o sobre o essencial. Sobrou Belchior na cabeça, o coração selvagem no peito querendo arriscar a incerteza, mas também a certeza de que certas presenças não precisam de matrícula para ocupar todo o espaço.


Será que um dia descobrirá os beijos que escondi nas dobras do blusão?...


Axé-Shalom-Amen!

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