Habituei-me à ausência como quem se adapta a um novo campo de estudo. Os encontros semanais viraram dados arquivados sob a pilha de tarefas domésticas e acadêmicas. Entre a mudança de casa e as novas leituras, a ideia de te ver virou uma variável descartada pela lógica da vida adulta.
Mas o destino é um coreógrafo debochado. Entrando no saguão após descer as escadas em ritmo de Raul Seixas, a "maluca beleza" quase colide com o seu objeto de estudo favorito: você, a pasta indefectível e um sorriso de quem também não esperava a trombada. O breve diálogo – um "tudo bem?" apressado – foi o prelúdio de uma série de sincronias inexplicáveis: o pé da escada virou nosso território de encontros eventuais.
Em determinado dia, graças ao meu insistente ritual com o batom vermelho e os cabelos após o almoço – sob o olhar impaciente dos colegas – o tempo se ajustou para que nos cruzássemos.
Você vinha em meio a um grupo, desvencilhando-se a passos rápidos, fazendo o cabelo saltar sobre os olhos. No corredor estreito pela montanha de carteiras abandonadas, a fila indiana nos forçou à uma proximidade absoluta. O sorriso largo, o toque no ombro e o cheiro – aquela mistura de couro, cigarro e automóvel – criaram uma atmosfera que a teoria não explica. Se fosse uma carona, eu definitivamente não perguntaria o destino.
À porta da sala, ainda sob os fortes efeitos da sua presença, ouvi o coro dos amigos sobre a saudade das suas aulas e apenas me rendi: semicerrei os olhos, soltei os ombros e deixei um suspiro adolescente escapar, acompanhando o grupo com a honestidade de quem ainda guarda o cheiro do encontro na pele. Quem sabe o próximo esbarrão não rompe os muros da instituição?
Axé-Shalom!
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