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sábado, 4 de abril de 2026

Breve carta ao Arcano 4

Tenho me perguntado, já há algum tempo, se você também sente a leveza no ar quando nossos caminhos se cruzam. Se você também sente um raio atravessar ao menor contato ou se também tem, às vezes, a sensação de estar se afogando em sentimentos que não sabe bem como nomear.

Há uma liturgia nesses nossos encontros, um ritual cheio de símbolos e significados que não precisa de palavras para ser sagrado.

Eu te batizei sem saber que você me ressuscitaria, e te coroei Imperador em segredo, num ritual de portas trancadas em meu reino. Porque a realidade comum parecia pequena demais para a força da sua presença. Para o Mundo, somos apenas dois acadêmicos atravessando o campus; para mim, é o encontro de duas forças que eu sinto que já conhecia desde antes da primeira aula – uma familiaridade inexplicável dentro de um ambiente em que as ciências exigem explicação. Talvez por isso mesmo eu tivesse me sentido tão à vontade.

E talvez por isso também essa minha naturalidade se perdeu: era muito mais simples com nossos papéis pré-estabelecidos e bem delineados. Eu sabia o que fazer, até onde ir e quando ficar. E de repente, quando tudo ficou mais solto, fui perdendo o controle – assim como quando entro em pane se tentar entrar no mar, justamente por não ter o controle de nada. Eu ainda não sei lidar com imprevisibilidades, e minha rotina tem sido me perder – e não é por você, é em você.

Existe uma nobreza no seu silêncio que espelha a minha própria procura por respostas: "Mas por quê?... Mas por que não?... Quando foi que isso mudou?..." – e sigo nesse looping infinito de controvérsias comigo mesma.

Não pretendo mudar o curso desse rio. Só desejo não me afogar nele em minhas noites insones. Então escrevo apenas para tentar me livrar do sentimento contra o qual sempre lutei, contra o desejo de te fazer saber que existe alguém que te lê além do currículo e das convenções. Alguém que reconhece a sua soberania e que, de longe, tenta sustentar o olhar e falha miseravelmente.

Alguém que admira e se afeiçoa muito mais que gostaria, mas que te respeita e que te lê enquanto o mundo passa distraído.

Ainda tenho muito a dizer, só não sei ainda COMO.

Da sua,

Imperatriz (Arcano 3).

Chag Pessach Sameach!

sábado, 10 de janeiro de 2026

Meu querer (poema)

Quero você
E esse querer vem muito antes d'eu querer.
Me vi perdida em mim mesma
Entre transbordar pelos olhos
E me vendar.
Mas o céu, a lua, o mar,
O sol que nasce trazendo calor
Me fazem lembrar toda vez que penso em esquecer
Que te quero.
E que sempre quis.
É um querer que criou raiz
No improvável solo do meu ser.
Te querer virou tormento e paz.
Júbilo e lamento.
Alimentar ou deixar morrendo
De inanição?
E o que fazer com esse choque que percorre o corpo?
Com os sobressaltos que se fazem ao peito?
Esses sonhos que se fazem em leito
Me deixando sem dormir?
Sentes o mesmo ou é só impressão
De que pensas em nós no escuro e na solidão
Do quarto à noite lembrando a colisão
Que nos une e repele mesmo sem intenção?
Eu nunca quis querer
E vejo em teu olhar: também não.
Mas a paixão, essa tirana
Invadiu nosso coração
À revelia.
O que fazer?
Não sei.
Só quis dizer pois sinto derreter
Com o calor que me provoca às entranhas.
Perdoe minha sanha de tentar fazer poema:
Não é deboche, aposte.
Não é teorema, é canção.
Se ainda puder rir, acene.
E eu poderei abrir os braços pra que você se assente
De vez em meu peito,
Sem receio ou razão.

(Dannie Machado – Niterói, 10/01/2026.)