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quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Vento que te trouxe

Acordei já era fim de tarde. 

Pela janela aberta que dá pro quintal, entrava o resto do Sol que se punha e uma música que vinha de longe, como se viesse através do vento.

Era Engenheiros do Hawaii. Reconheci a melodia e senti conforto como quem encontra um bilhete esperado numa garrafa em alto-mar, ou como quando um cheiro muito conhecido invade os pulmões, mas não lembrava e nem entendia a letra cantada. A música parecia vir de muito longe, mas quis buscar a letra na internet – ela cessou antes que eu pudesse me conectar, justamente como surgiu: do nada. 

Ainda lembrei de tentar buscá-la uma ou duas vezes até o fim do dia, inclusive no banho. Mas a melodia já tinha se perdido. Deixei pra lá. Não devia mesmo ser um sinal pra mim como eu pensava.

O resto da noite se passou e eu já me distraía antes de pegar no sono rolando pela rede social quando passei por alguém que fez um trocadilho com o nome dessa mesma banda. Era mesmo um sinal? Resolvi arriscar e joguei "letras Engenheiros do Hawaii" no Google. Logo apareceu uma lista e minha intuição pediu pra clicar na primeira que me apareceu (porque eu sou péssima com títulos de música). Foi em cheio:


3 X 4

"Diga a verdade

Ao menos uma vez na vida

Você se apaixonou

Pelos meus erros


Não fique pela metade

Vá em frente, minha amiga

Destrua a razão

Deste beco sem saída


Diga a verdade

Ponha o dedo na ferida

Você se apaixonou

Pelos meus erros


E eu perdi as chaves

Mas que cabeça a minha

Agora vai ter que ser

Para toda a vida


Somos o que há de melhor

Somos o que dá pra fazer

O que não dá pra evitar

E não se pode escolher


Se eu tivesse a força

Que você pensa que eu tenho

Eu gravaria no metal da minha pele

O teu desenho


Feitos um pro outro

Feitos pra durar

Uma luz que não produz

Sombra


O que não dá pra evitar

E não se pode escolher


Somos o que há de melhor

Somos o que dá pra fazer

O que não dá pra evitar

E não se pode escolher"


Te vejo amanhã? Não sei. Deixei que o Destino faça a sua parte, do jeito que tem que ser.

Boa noite!

Axé-Amen-Shalom!

segunda-feira, 1 de junho de 2026

A Travessia

Eu não consigo te prometer uma estrada sem curvas, porque a vida nunca foi assim para mim, mas quando penso em futuro, penso em construir alguma coisa que tenha paz, não uma paixão que explode e desaparece.

Eu gostaria que você soubesse que nem todo amor precisa ser uma batalha. Nem toda história precisa ser marcada por ausências, desencontros ou dúvidas constantes. Existe uma versão de nós onde os dias são simples, onde eu te procuro porque quero te contar como foi meu dia. Onde você é a primeira pessoa para quem eu mando uma foto de algo bonito que encontrei pelo caminho. Quando penso em você no futuro, não imagino apenas momentos extraordinários. Imagino rotina. Imagino domingos preguiçosos. Imagino viagens planejadas em cima da hora. Imagino discussões bobas sobre qual filme assistir, porque é isso que eu imagino viver com você.

(@Wanderlust)


Te vejo dia 12!


"Quando você foi embora

Fez-se noite em meu viver

Forte eu sou, mas não tem jeito

Hoje eu tenho que chorar


Minha casa não é minha

E nem é meu este lugar

Estou só e não resisto

Muito tenho pra falar


Solto a voz nas estradas

Já não quero parar

Meu caminho é de pedra

Como posso sonhar?


Sonho feito de brisa

Vento, vem terminar

Vou fechar o meu pranto

Vou querer me matar


Vou seguindo pela vida

Me esquecendo de você

Eu não quero mais a morte

Tenho muito o que viver


Vou querer (te) amar de novo

E se não der, não vou sofrer

Já não sonho, hoje faço

Com meu braço o meu viver


Solto a voz nas estradas

Já não quero parar

Meu caminho é de pedra

Como posso sonhar?


Sonho feito de brisa

Vento, vem terminar

Vou fechar o meu pranto

Vou querer me matar..."

sábado, 16 de maio de 2026

Nihayet seni buldum!*

 EU NÃO ACREDITO!! 

Meus deuses, como eu estive errada!! Negando a mim mesma as verdades que minh'alma gritava por medo ou frustração... 

Aquilo que veio antes foi "fase de teste" – uma forma de ampliar meu chakra cardíaco o suficiente para poder caber você.

Aquele que te precedia com um abraço-casa nunca foi meu lar. Me forjou através do amor que não soube – ou não pôde – me entregar.

Tive que aprender a curar minhas próprias feridas pra estar pronta, estar forte, já que o que viria em seguida seria tão grandioso que eu sequer poderia imaginar.

Reencontrar você e nossos "filhos" foi uma tarefa árdua, mas não foi em vão: enxergo hoje cada pedaço do que vivemos e mais lembranças chegam me desconstruindo certezas vãs.

O que será de nós daqui pra frente, não sei, pois só depende de nós. Mas voltar a experimentar esse amor finalmente me trouxe o sentido e o propósito que tanto busquei. 

Então seguirei em frente, sendo o melhor que eu posso ser. Não posso controlar o destino do mundo, mas hoje sei que posso controlar o meu. E é o seu amor – entregue junto com tâmaras pelas ruas de Istambul há mais de 100 anos, ou hoje, através do seu olhar zeloso – que me fará ir mais longe depois de uma vida inteira desacreditando de mim.

Eu só queria que você também pudesse sentir essa presença divina que sinto em mim. Tenho fé de que, longe ou perto, um dia sentirá (se ainda não se permitiu).

Se um dia "foi um vento que passou, que te trouxe e te levou" (como cantava Verônica Sabino), foi esse mesmo vento que nos trouxe a todos de volta à costa do Gragoatá.


E um vento, você bem sabe, "não dá pra segurar".


"No alto da montanha
Ou em um cavalo em verde vale
E tendo o poder de levitar
É como em um comercial de cigarros
Que a verdade se esquece como os tragos
Sonho difícil de acordar

Quando seus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá pra segurar
Não dá prá segurar
Não dá prá segurar
Não dá pra segurar,
Desculpe, meu amigo
Mas não dá pra segurar

Vou dar então um passeio
Pelas praias da Bahia
Onde a Lua se parece
Com a bandeira da Turquia

É o planeta inteiro que respira
Sinais de vida em cada esquina
Tanta gente que se anima

E quando seus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá pra segurar

Não dá pra segurar
Não dá pra segurar
Não dá pra segurar
Desculpe, meu amigo
Mas não dá pra segurar..."

(Ira!)

Yakında görüşürüz! Τα λέμε σύντομα...

*(Ler "Neredesin?" - novembro/2024)

sábado, 9 de maio de 2026

"Será que sou tão especial assim?..."

Dia desses, estava eu com uma amiga conversando sobre essas "coincidências que não são coincidências" (mas confirmações da espiritualidade) e ela (bem mais nova que eu) se fez essa pergunta que eu já me fiz muito também. 

A verdade, é que todos nós somos especiais. Podemos ser ilustríssimos desconhecidos do grande público, não termos muitas posses, mas somos indubitavelmente protagonistas da nossa vida, querendo ou não, e cada um de nós tem um secto de encarnados e desencarnados (muitas vezes, mais desencarnados) que nos ama muito – mesmo que não entendamos muito o porquê.

Eu tive uma trajetória de vida que, por muitos, é considerada muito difícil. Eu nunca achei confortável o lugar de vítima, então fiz dos limões um consistente mousse: bati as claras incansavelmente até construir a base desta minha sabedoria meio torta, mas que me mantém de pé e, às vezes, tbm ajuda outras pessoas. Porém, sempre consciente que, sozinha, eu certamente não iria muito longe (mesmo que a grande maioria não consiga enxergar o bando de companhias que tenho, já que estão em "outro plano").

Dito isso, neste momento, sinto apenas a necessidade de publicizar minha gratidão – pois neste momento, observo os lugares de onde vim, por onde passei, onde cheguei e os caminhos que têm sido abertos pra eu seguir essa viagem louca chamada VIDA, e é de admirar!

"O que tem de ser tem muita força", e sinto hoje que não mais dou murros em ponta de faca: as sementes que plantei estão brotando e está tudo se encaixando, simplesmente pq finalmente as plantei em solo fértil (onde meu coração mandou, NINGUÉM MAIS).

Daqui da onde estou, só posso deixar uma mensagem que eu gostaria muito que a Dannie de 15 anos pudesse ter recebido:

NUNCA DESISTA DE VOCÊ. NUNCA DESISTA DOS SEUS SONHOS – AQUELES QUE NÃO OUSARAM TENTARÃO TE SEDUZIR AO PRÓPRIO MURO DE LAMENTAÇÕES: NÃO PERMITA.

Levanta e anda, e sonha! Não deixem de sonhar nunca. Mas também não parem. 


GRATIDÃO!! ✨


Amen-Axé-Shalom!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Diário de Campo I

Parece que hoje presenciamos, através deste texto, um marco. 

Aquela moça um tanto jocosa, assumidamente louca e excepcionalmente romântica deu lugar a uma mulher mas emocionalmente previsível, centrada e bem mais reflexiva (não que não fosse antes).

Dito isto, podemos prosseguir daqui...

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É, me parece que a vida de pesquisadora-dicente é mesmo bastante solitária. 

A Antropologia entrou em minha vida no momento exato em que deveria: já aos 44 anos, tendo arriscado diversas carreiras, diversos estilos de vida, e mais um sem número de relacionamentos que me tiraram do meu centro. Todos os altos e baixos me ensinaram que eu não quero viver em rodas gigantes não. Acho que nunca quis. Mas, de alguma forma, a Vida parece que me quis experimentando tudo pra poder, hoje, sintetizar tudo isso na carreira que essa própria Vida me deu.

Afinal, como estudar e produzir conhecimento sobre humanidades (antropo) sem realmente tê-las experimentado? 

Não estou fazendo terapia, mas às vezes sinto falta. Apesar de agora, já sem mais remédio nenhum, eu estar conseguindo dar conta de me entender - não era crise bipolar, era crise sensorial esse tempo todo. Isso explica porque meu "transtorno bipolar" não teve um "marco zero" e eu não conseguia encontrar gatilhos, nem mesmo com quase 20 anos de acompanhamento psico-psiquiátrico: sou assim desde que nasci. Isso sempre fez parte de mim. Mas o melhor de tudo, é que estou cada vez mais consciente dos meus "gatilhos": sons, luzes, cheiros, toques e até olhares podem afetar quase fatalmente quem tem hipersensibilidade. 

Mas, enfim, viemos falar da vida de pesquisadora-discente, não é?

Enfim, desde que iniciei a graduação em Antropologia na UFF (depois de ter decidido nunca mais pôr os pés na UNIRIO e nem fazer nada que me recordasse tudo que vivi no Serviço Social), minha vida parece dar uma guinada de 180 graus a cada esquina que eu viro: resgatei sonhos antigos, conheci outras pessoas que muito se parecem comigo em minhas neurodivergências, mudei de cidade e a cada novo lugar que visito em meu "reconhecimento de campo" me dá uma sensação muito intensa e ao mesmo tempo leve de quem já esteve ali, naquele lugar, em instantes oníricos. O carrossel de déjà vus não pára - o que às vezes dá até um pouco de vertigem, mas não tira o sentimento instigado de vislumbrar o pote de ouro no fim do arco-íris. 

Enfim: morando agora a poucos minutos a pé do campus (mais perto ainda do que a república anterior, na qual vivi por aproximadamente 6 meses) a sensação de viver dentro da própria universidade é inevitável: o curso é integral e, mesmo que eu tenha decidido optar apenas por disciplinas vespertinas quando montei minha grade desse semestre, a vida quis que eu fosse escolhida num processo seletivo para bolsistas de um projeto de monitoria (na verdade, um dos vários editais a que concorri desde o início do ano), e a disciplina à qual atualmente dou assistência é pela manhã. Ou seja: ao menos 2 vezes por semana chego lá, no "quintal de casa", nas primeiras horas do dia, e só saio por volta das 19:00h, se tiver sorte de pegar o bandejão não muito cheio pro jantar (o que ultimamente anda raro, graças ao funcionamento parcial por conta da greve dos funcionários). O movimento estudantil ainda quis me puxar de volta, mas engoli meu orgulho e botei a vaidade no bolso: deixa que os jovens entreguem agora todo sangue, suor e lágrimas que eu dei de mim uma década e meia atrás. 

Pois é, a carga horária pode ser um pouco puxada - principalmente se sua permanência na universidade depender de auxílios e bolsas, que exigem compromisso em contrapartida. Mas não reclamo: ao menos pago as contas com as horas trabalhadas em algo que tenho gostado cada vez mais e tenho uma vida simples, mas confortável. Os textos antropológicos e relacionados são densos e o volume também é bem grande - há professores que nos exigem a leitura de um ou 2 livros inteiros em apenas uma semana (isso sem contar os textos a serem lidos das outras disciplinas) - então não só de período presencial é feita a graduação em Antropologia, mas também das horas extras de dedicação em casa. Tenho até testado aplicativos no celular para me ajudar a organizar a rotina entre leituras, trabalhos e tarefas domésticas das quais não posso abrir mão. Ainda não bati o martelo sobre qual combinação usar de fato, mas acho que, aos poucos, está ajudando sim. Também tenho lançado mão de alguns "artifícios" pra não desregular (muito) e adquirido estratégias para escapar do excesso de estímulos sensoriais e situações que podem engatilhar essas crises - e dessa vez, pela primeira vez depois de tantos anos de psiquiatria, estou conseguindo mirar no problema certo e solucioná-lo de verdade, sem mais os placebos dos remédios controlados que só me transformavam em um robô sem memória, sem vontade de viver e com sua constituição física cada vez mais deteriorada (acabando, assim, com minha autoestima, que nunca foi lá muita).

De qualquer forma, agora estou num meio em que me sinto muito confortável (diferente de outrora) pois percebo que o que penso e faço (e como penso e faço) pode chamar muito mais atênção que minha aparência.

A monitoria também tem sido uma delícia, apesar dos desafios - porém, nenhum desafio maior do que minha experiência na minha outra universidade, onde tudo parecia ser feito meio de improviso, sem a mínima orientação sobre o que e como fazer. Talvez não tivesse sido tão traumático se eu também não tivesse sido deixada sozinha pela minha orientadora na hora de fazer e apresentar o trabalho resultante dessa experiência na Semana de Integração Acadêmica... Mas voltando à ideia inicial do parágrafo, a experiência tem sido muito gratificante, mesmo ainda no primeiro mês - retomei àquele sonho antigo de lecionar, coisa que até tinha desistido... O tempo tinha passado pra mim, lembram? Quem diria que aquela mulher de 7 anos atrás, que tinha perdido bens, afetos, perspectivas e até dignidade, que tinha achado que a vida tinha acabado ali, hoje estaria aqui pra contar outra história...

E pra "fechar o pacote", por último mas não menos importante, o curso de francês que inventei de fazer nas manhãs "livres" (como se eu não tivesse textos prá ler e escrever nem tivesse que auxíliar na assistência a outros colegas e à professora como monitora...). Pelo menos é EaD, posso fazer no "conforto do meu lar" (contanto que eu não atrapalhe minhas companheiras de quarto, que são bem legais, diga-se de passagem – bem mais que da república anterior). 


Enfim, tudo isso pra talvez tentar justificar minha tão longa ausência deste blog. Não foi falta do que escrever, pelo contrário: é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo!! Cansativo? Não vou mentir que não, porque é. Mas é ao mesmo tempo extremamente prazeroso - eu nunca me imaginaria tão feliz me desgastando assim em qualquer emprego CLT (igualmente digno, mas muito distante do que minh'alma sempre aspirou).

"E o coração?... Desocupado?...", é o que provavelmente a "velha-guarda" deste blog perguntaria se ainda estivesse por aqui (o que duvido muito pelo nível de "poeira virtual"). Eu te diria: não sei. Difícil dizer. Porque antes eu sempre punha o amor por alguém na frente de tudo: homens, filhos, pais... E acho que agora, pela primeira vez na minha vida, o maior amor que tenho sentido por algo que não seja eu mesma é a Antropologia e a vida acadêmica. Perdi aquele ranço que tinha ficado em mim depois de todos aqueles traumas passados... Estou reprendendo a amar. Mais e melhor - mesmo que pra isso eu ainda tenha que ir lá atrás, vez ou outra, revisitar esse mesmos traumas pra lhes dar uma nova cara, um novo significado.  E não é isso que uma antropóloga faz? Buscar significados? (Transformá-los já é outra coisa que sai da alçada da profissional...)


Enfim, enfim, enfim, pela enésima vez (pra não perder o costume da piada autocrítica), há sim muitas outras coisas que eu queria explorar aqui. Mas eu já falei/escrevi tanta coisa hoje, não?

Será que lerão tudo?... Será que alguém sequer vai ler?...


Tanto melhor se não lerem: será então nosso pequeno segredo.

Bom domingo, São Domingos!

Amen-Axé-Shalom!

sábado, 4 de abril de 2026

Breve carta ao Arcano 4

Tenho me perguntado, já há algum tempo, se você também sente a leveza no ar quando nossos caminhos se cruzam. Se você também sente um raio atravessar ao menor contato ou se também tem, às vezes, a sensação de estar se afogando em sentimentos que não sabe bem como nomear.

Há uma liturgia nesses nossos encontros, um ritual cheio de símbolos e significados que não precisa de palavras para ser sagrado.

Eu te batizei sem saber que você me ressuscitaria, e te coroei Imperador em segredo, num ritual de portas trancadas em meu reino. Porque a realidade comum parecia pequena demais para a força da sua presença. Para o Mundo, somos apenas dois acadêmicos atravessando o campus; para mim, é o encontro de duas forças que eu sinto que já se conheciam desde antes da primeira aula – uma familiaridade inexplicável dentro de um ambiente em que as ciências exigem explicação. Talvez por isso mesmo eu tivesse me sentido tão à vontade.

E talvez por isso também essa minha naturalidade se perdeu: era muito mais simples com nossos papéis pré-estabelecidos e bem delineados. Eu sabia o que fazer, até onde ir e quando ficar. E de repente, quando tudo ficou mais solto, fui perdendo o controle – assim como quando entro em pane se tento entrar no mar, justamente por não ter onde me segurar. Eu ainda não sei lidar com imprevisibilidades, e minha rotina tem sido me perder – e não é por você, é em você.

Existe uma nobreza no seu silêncio que espelha a minha própria procura por respostas: "Mas por quê?... Mas por que não?... E quando foi que isso mudou?..." – e sigo nesse looping infinito de controvérsias comigo mesma.

Não pretendo mudar o curso desse rio. Só desejo não me afogar nele em minhas noites insones. Então escrevo apenas para tentar me livrar do sentimento contra o qual sempre lutei, contra o desejo de te fazer saber que existe alguém que te lê além da formação e das convenções: te lê as entrelinhas de humanidade. Alguém que reconhece a sua soberania e que, de longe, tenta sustentar o olhar e falha miseravelmente – simplesmente porque se tornou espelho demais.

Alguém que admira e se afeiçoa muito mais que gostaria, mas que te respeita e que te lê enquanto o mundo passa distraído.

Ainda tenho muito a dizer, só não sei ainda COMO.

Da sua,

Imperatriz (Arcano 3).

Chag Pessach Sameach!

sábado, 10 de janeiro de 2026

Meu querer (poema)

Quero você
E esse querer vem muito antes d'eu querer.
Me vi perdida em mim mesma
Entre transbordar pelos olhos
E me vendar.
Mas o céu, a lua, o mar,
O sol que nasce trazendo calor
Me fazem lembrar toda vez que penso em esquecer
Que te quero.
E que sempre quis.
É um querer que criou raiz
No improvável solo do meu ser.
Te querer virou tormento e paz.
Júbilo e lamento.
Alimentar ou deixar morrendo
De inanição?
E o que fazer com esse choque que percorre o corpo?
Com os sobressaltos que se fazem ao peito?
Esses sonhos que se fazem em leito
Me deixando sem dormir?
Sentes o mesmo ou é só impressão
De que pensas em nós no escuro e na solidão
Do quarto à noite lembrando a colisão
Que nos une e repele mesmo sem intenção?
Eu nunca quis querer
E vejo em teu olhar: também não.
Mas a paixão, essa tirana
Invadiu nosso coração
À revelia.
O que fazer?
Não sei.
Só quis dizer pois sinto derreter
Com o calor que me provoca às entranhas.
Perdoe minha sanha de tentar fazer poema:
Não é deboche, aposte.
Não é teorema, é canção.
Se ainda puder rir, acene.
E eu poderei abrir os braços pra que você se assente
De vez em meu peito,
Sem receio ou razão.

(Dannie Machado – Niterói, 10/01/2026.)

domingo, 30 de novembro de 2025

Quando você entrou em mim como um Sol no meu quarto

"Mais uma noite quente de verão. Deitado, olhando pro teto e com um dos braços acima da cabeça, tentei dormir.

Mal fechei os olhos e um cheiro de tangerina invadiu o quarto, junto com um vento que eu não sabia de onde vinha. Abri os olhos e era ela: vinha em minha direção, sua longa saia esvoaçante, os cabelos revoltos pelo vento e trazendo um sol vivo no olhar. Vestia a mesma roupa que exibia sua cintura faceira e me deixou sem reação no último encontro, mas dessa vez, as peças eram alvas.

Assustado, pisquei os olhos e os esfreguei com a mão que eu havia pousado sobre a barriga. Ela se aproximava pé ante pé, como quem brinca na corda bamba. Olhei pro lado pra me certificar de que quem dormia ali não estivesse vendo o mesmo que eu: não havia mais ninguém.

Ela então chegou perto da cama e, com a leveza de uma entidade, se debruçou sobre mim. Olhou dentro dos meus olhos e me farejou como uma onça no cio. Depois foi descendo ao meu peito e me esfregou sua cabeleira como uma gata pedindo afago. Eu não tinha reação.

Queria mandá-la embora, dizer que aquilo era uma loucura: fazer o certo a fazer. Mas ao mesmo tempo, eu só queria mergulhar mais fundo.

Ela então subiu de novo e me encarou face a face. Seu cordão de aço com pingente misterioso escapou de dentro de seu decote e balançava, tocando meu queixo. Respirei do hálito que sua boca exalava como se sugasse minha própria vida.

Uma de suas mãos apoiada acima do meu ombro agarrou meus cabelos e ela desfilava sobre mim aquele aroma delicado. Tudo era irresistível demais pra resisti
r.

– Então, é você a Serpente do meu Paraíso?... – sussurrei. 
Sem parar de dançar sobre mim, respondeu de forma maliciosa:
– Todo Jardim do Éden tem uma Serpente e um Fruto da Árvore do Conhecimento... Você escolhe o que sou pra você..." – e entre os cabelos me fitou com um semi-sorriso de quem queria testar minha sanidade.

Sanidade esta que perdi nesse momento: a mão que eu tinha pousado sobre a minha cabeça agora agarrava seus cabelos rebeldes pela nuca, e tentava pressionar seus lábios rubros contra os meus. Ela resistia: mostrava os dentes, oferecia a orelha, me olhava como quem estava no comando.

Ainda sobre mim, se desvencilhou e ergueu mais o tronco: pegou minha mão e juntos abrimos vagarosamente o zíper de seu corpete, enquanto ela dizia:
– Então... Parece que você fez sua escolha...

Com a voz entrecortada pela respiração ofegante, suspirei e olhei pro alto:
– Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada... – e engoli seco.

Sorrindo como quem vence uma batalha pela minha alma, ela termina de abrir o zíper e orienta minhas mãos pelo seu corpo. Minhas mãos finalmente exploram aquela cintura que tirou meu sono.

Ela continua dançando sobre mim, volta a se debruçar. Me beija e seus gemidos em meu ouvido soam como canto de sereia a me levar pro fundo das águas...

Minha língua então explora as curvas de seu colo: sua respiração intensifica, os suspiros agudizam, seus olhos reviram e seu corpo se abre e se entrega pra mim como se o próprio fato de me trazer de volta à vida a levasse ao êxtase (onde chegamos juntos, num clarão de luz).

Então acordei. Molhado de fluídos que não sei identificar ao certo e buscando sua presença ainda tão presente em meu quarto. Eu queria ficar ainda deitado pra retomar o fôlego, mas olhando aquele outro corpo que dormia ao lado e minha própria situação, achei melhor acelerar uma ducha e vestir roupas limpas. Me senti um adolescente tentando esconder as peças sujas no fundo do cesto, esperando que ninguém reparasse ou comentasse. Não tenho mais idade pra essas coisas...

Voltei a deitar, mas o sono não vinha: queria revisitar aquele cenário, voltar a sentir os cheiros e a pele. E se eu mandasse uma mensagem?...

Longe demais. Deixa pra lá. Uma pena..."

terça-feira, 11 de novembro de 2025

O Coração Selvagem

Havia um hiato de calendários e silêncios que me fez supor a ausência como regra. Mas aquela segunda-feira ignorou meus pressupostos.

Não foi um desses avistamentos furtivos pelos corredores. Dessa vez você parou. O sorriso, com aquela modulação que desarma a pressa, transformou o meu grupo à sua órbita. Enquanto as palavras de Durkheim costumavam me tirar o sono, ali, sob a luz do sol de Niterói, no ângulo exato que transformava sua íris em vitral, o cansaço virou observação participante.

Alguém mencionou a complexidade de outrem, e você, em sua síntese elegante, foi interrompido por um ato falho coletivo — ou melhor, por uma saudade que escapou da boca de outra pessoa mas que, pro meu espanto, trazia o meu timbre. A "declaração de amor acadêmica" serviu de escudo para minha própria mudez. O riso que se seguiu, de timidez mineira, me foi o único "fato social" relevante do dia, me relaxando da tensão de uma adolescente que flagra seu próprio diário violado.

Você se despediu, prometendo-me um de seus dias da semana. Eu, que já decorara o cronograma dos ventos, apenas observei teu recuo, segurando a pasta como quem carrega o tempo de quem quer ficar. No fim, ficamos nós, a "turma do outro bairro" – eles brincando sobre "crushes intelectuais" e eu calando o sobre o essencial. Sobrou Belchior na cabeça, o coração selvagem no peito querendo arriscar a incerteza, mas também ficou a certeza de que certas presenças não precisam de matrícula para ocupar todo o espaço.


Será que um dia descobrirá os beijos que escondi nas dobras do blusão?...


Axé-Shalom-Amen!

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Os Lírios Universitários ("É Primavera!")

Habituei-me à ausência como quem se adapta a um novo campo de estudo. Os encontros semanais viraram dados arquivados sob a pilha de tarefas domésticas e acadêmicas. Entre a mudança de casa e as novas leituras, a ideia de te ver virou uma variável descartada pela lógica da vida adulta.

Mas o destino é um coreógrafo debochado. Entrando no saguão após descer as escadas em ritmo de Raul Seixas, a "maluca beleza" quase colide com o seu objeto de estudo favorito: você, a pasta indefectível e um sorriso de quem também não esperava a trombada. O breve diálogo – um "tudo bem?" apressado – foi o prelúdio de uma série de sincronias inexplicáveis: o pé da escada virou nosso território de encontros eventuais.

Em determinado dia, graças ao meu insistente ritual com o batom vermelho e os cabelos após o almoço – sob o olhar impaciente dos colegas – o tempo se ajustou para que nos cruzássemos.

Você vinha em meio a um grupo, desvencilhando-se a passos rápidos, fazendo o cabelo saltar sobre os olhos. No corredor estreito pela montanha de carteiras abandonadas, a fila indiana nos forçou à uma proximidade absoluta. O sorriso largo, o toque no ombro e o cheiro – aquela mistura de couro, cigarro e automóvel – criaram uma atmosfera que a teoria não explica. Se fosse uma carona, eu definitivamente não perguntaria o destino.

À porta da sala, ainda sob os fortes efeitos da sua presença, ouvi o coro dos amigos sobre a saudade das suas aulas e apenas me rendi: semicerrei os olhos, soltei os ombros e deixei um suspiro adolescente escapar, acompanhando o grupo com a honestidade de quem ainda guarda o cheiro do encontro na pele. Quem sabe o próximo esbarrão não rompe os muros da instituição?


Axé-Shalom!