Pesquisar este blog

sábado, 9 de maio de 2026

"Será que sou tão especial assim?..."

Dia desses, estava eu com uma amiga conversando sobre essas "coincidências que não são coincidências" (mas confirmações da espiritualidade) e ela (bem mais nova que eu) se fez essa pergunta que eu já me fiz muito também. 

A verdade, é que todos nós somos especiais. Podemos ser ilustríssimos desconhecidos do grande público, não termos muitas posses, mas somos indubitavelmente protagonistas da nossa vida, querendo ou não, e cada um de nós tem um secto de encarnados e desencarnados (muitas vezes, mais desencarnados) que nos ama muito – mesmo que não entendamos muito o porquê.

Eu tive uma trajetória de vida que, por muitos, é considerada muito difícil. Eu nunca achei confortável o lugar de vítima, então fiz dos limões um consistente mousse: bati as claras incansavelmente até construir a base desta minha sabedoria meio torta, mas que me mantém de pé e, às vezes, tbm ajuda outras pessoas. Porém, sempre consciente que, sozinha, eu certamente não iria muito longe (mesmo que a grande maioria não consiga enxergar o bando de companhias que tenho, já que estão em "outro plano").

Dito isso, neste momento, sinto apenas a necessidade de publicizar minha gratidão – pois neste momento, observo os lugares de onde vim, por onde passei, onde cheguei e os caminhos que têm sido abertos pra eu seguir essa viagem louca chamada VIDA, e é de admirar!

"O que tem de ser tem muita força", e sinto hoje que não mais dou murros em ponta de faca: as sementes que plantei estão brotando e está tudo se encaixando, simplesmente pq finalmente as plantei em solo fértil (onde meu coração mandou, NINGUÉM MAIS).

Dito isso, daqui da onde estou, só posso deixar uma mensagem que eu gostaria muito que a Dannie de 15 anos pudesse ter recebido:

NUNCA DESISTA DE VC. NUNCA DESISTA DOS SEUS SONHOS – AQUELES QUE NÃO OUSARAM TENTARÃO TE SEDUZIR AO PRÓPRIO MURO DE LAMENTAÇÕES: NÃO PERMITA.

Levanta e anda, e sonha! Não deixem de sonhar nunca. Mas também não parem. 


GRATIDÃO!! ✨


Amen-Axé-Shalom!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Diário de Campo I

Parece que hoje presenciamos, através deste texto, um marco. 

Aquela moça um tanto jocosa, assumidamente louca e excepcionalmente romântica deu lugar a uma mulher mas emocionalmente previsível, centrada e bem mais reflexiva (não que não fosse antes).

Dito isto, podemos prosseguir daqui...

_____________________________________________________________________________________________

É, me parece que a vida de pesquisadora-dicente é mesmo bastante solitária. 

A Antropologia entrou em minha vida no momento exato em que deveria: já aos 44 anos, tendo arriscado diversas carreiras, diversos estilos de vida, e mais um sem número de relacionamentos que me tiraram do meu centro. Todos os altos e baixos me ensinaram que eu não quero viver em rodas gigantes não. Acho que nunca quis. Mas, de alguma forma, a Vida parece que me quis experimentando tudo pra poder, hoje, sintetizar tudo isso na carreira que essa própria Vida me deu.

Afinal, como estudar e produzir conhecimento sobre humanidades (antropo) sem realmente tê-las experimentado? 

Não estou fazendo terapia, mas às vezes sinto falta. Apesar de agora, já sem mais remédio nenhum, eu estar conseguindo dar conta de me entender - não era crise bipolar, era crise sensorial esse tempo todo. Isso explica porque meu "transtorno bipolar" não teve um "marco zero" e eu não conseguia encontrar gatilhos, nem mesmo com quase 20 anos de acompanhamento psico-psiquiátrico: sou assim desde que nasci. Isso sempre fez parte de mim. Mas o melhor de tudo, é que estou cada vez mais consciente dos meus "gatilhos": sons, luzes, cheiros, toques e até olhares podem afetar quase fatalmente quem tem hipersensibilidade. 

Mas, enfim, viemos falar da vida de pesquisadora-discente, não é?

Enfim, desde que iniciei a graduação em Antropologia na UFF (depois de ter decidido nunca mais pôr os pés na UNIRIO e nem fazer nada que me recordasse tudo que vivi no Serviço Social), minha vida parece dar uma guinada de 180 graus a cada esquina que eu viro: resgatei sonhos antigos, conheci outras pessoas que muito se parecem comigo em minhas neurodivergências, mudei de cidade e a cada novo lugar que visito em meu "reconhecimento de campo" me dá uma sensação muito intensa e ao mesmo tempo leve de quem já esteve ali, naquele lugar, em instantes oníricos. O carrossel de déjà vus não pára - o que às vezes dá até um pouco de vertigem, mas não tira o sentimento instigado de vislumbrar o pote de ouro no fim do arco-íris. 

Enfim: morando agora a poucos minutos a pé do campus (mais perto ainda do que a república anterior, na qual vivi por aproximadamente 6 meses) a sensação de viver dentro da própria universidade é inevitável: o curso é integral e, mesmo que eu tenha decidido optar apenas por disciplinas vespertinas quando montei minha grade desse semestre, a vida quis que eu fosse escolhida num processo seletivo para bolsistas de um projeto de monitoria (na verdade, um dos vários editais a que concorri desde o início do ano), e a disciplina à qual atualmente dou assistência é pela manhã. Ou seja: ao menos 2 vezes por semana chego lá, no "quintal de casa", nas primeiras horas do dia, e só saio por volta das 19:00h, se tiver sorte de pegar o bandejão não muito cheio pro jantar (o que ultimamente anda raro, graças ao funcionamento parcial por conta da greve dos funcionários). O movimento estudantil ainda quis me puxar de volta, mas engoli meu orgulho e botei a vaidade no bolso: deixa que os jovens entreguem agora todo sangue, suor e lágrimas que eu dei de mim uma década e meia atrás. 

Pois é, a carga horária pode ser um pouco puxada - principalmente se sua permanência na universidade depender de auxílios e bolsas, que exigem compromisso em contrapartida. Mas não reclamo: ao menos pago as contas com as horas trabalhadas em algo que tenho gostado cada vez mais e tenho uma vida simples, mas confortável. Os textos antropológicos e relacionados são densos e o volume também é bem grande - há professores que nos exigem a leitura de um ou 2 livros inteiros em apenas uma semana (isso sem contar os textos a serem lidos das outras disciplinas) - então não só de período presencial é feita a graduação em Antropologia, mas também das horas extras de dedicação em casa. Tenho até testado aplicativos no celular para me ajudar a organizar a rotina entre leituras, trabalhos e tarefas domésticas das quais não posso abrir mão. Ainda não bati o martelo sobre qual combinação usar de fato, mas acho que, aos poucos, está ajudando sim. Também tenho lançado mão de alguns "artifícios" pra não desregular (muito) e adquirido estratégias para escapar do excesso de estímulos sensoriais e situações que podem engatilhar essas crises - e dessa vez, pela primeira vez depois de tantos anos de psiquiatria, estou conseguindo mirar no problema certo e solucioná-lo de verdade, sem mais os placebos dos remédios controlados que só me transformavam em um robô sem memória, sem vontade de viver e com sua constituição física cada vez mais deteriorada (acabando, assim, com minha autoestima, que nunca foi lá muita).

De qualquer forma, agora estou num meio em que me sinto muito confortável (diferente de outrora) pois percebo que o que penso e faço (e como penso e faço) pode chamar muito mais atênção que minha aparência.

A monitoria também tem sido uma delícia, apesar dos desafios - porém, nenhum desafio maior do que minha experiência na minha outra universidade, onde tudo parecia ser feito meio de improviso, sem a mínima orientação sobre o que e como fazer. Talvez não tivesse sido tão traumático se eu também não tivesse sido deixada sozinha pela minha orientadora na hora de fazer e apresentar o trabalho resultante dessa experiência na Semana de Integração Acadêmica... Mas voltando à ideia inicial do parágrafo, a experiência tem sido muito gratificante, mesmo ainda no primeiro mês - retomei àquele sonho antigo de lecionar, coisa que até tinha desistido... O tempo tinha passado pra mim, lembram? Quem diria que aquela mulher de 7 anos atrás, que tinha perdido bens, afetos, perspectivas e até dignidade, que tinha achado que a vida tinha acabado ali, hoje estaria aqui pra contar outra história...

E pra "fechar o pacote", por último mas não menos importante, o curso de francês que inventei de fazer nas manhãs "livres" (como se eu não tivesse textos prá ler e escrever nem tivesse que auxíliar na assistência a outros colegas e à professora como monitora...). Pelo menos é EaD, posso fazer no "conforto do meu lar" (contanto que eu não atrapalhe minhas companheiras de quarto, que são bem legais, diga-se de passagem – bem mais que da república anterior). 


Enfim, tudo isso pra talvez tentar justificar minha tão longa ausência deste blog. Não foi falta do que escrever, pelo contrário: é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo!! Cansativo? Não vou mentir que não, porque é. Mas é ao mesmo tempo extremamente prazeroso - eu nunca me imaginaria tão feliz me desgastando assim em qualquer emprego CLT (igualmente digno, mas muito distante do que minh'alma sempre aspirou).

"E o coração?... Desocupado?...", é o que provavelmente a "velha-guarda" deste blog perguntaria se ainda estivesse por aqui (o que duvido muito pelo nível de "poeira virtual"). Eu te diria: não sei. Difícil dizer. Porque antes eu sempre punha o amor por alguém na frente de tudo: homens, filhos, pais... E acho que agora, pela primeira vez na minha vida, o maior amor que tenho sentido por algo que não seja eu mesma é a Antropologia e a vida acadêmica. Perdi aquele ranço que tinha ficado em mim depois de todos aqueles traumas passados... Estou reprendendo a amar. Mais e melhor - mesmo que pra isso eu ainda tenha que ir lá atrás, vez ou outra, revisitar esse mesmos traumas pra lhes dar uma nova cara, um novo significado.  E não é isso que uma antropóloga faz? Buscar significados? (Transformá-los já é outra coisa que sai da alçada da profissional...)


Enfim, enfim, enfim, pela enésima vez (pra não perder o costume da piada autocrítica), há sim muitas outras coisas que eu queria explorar aqui. Mas eu já falei/escrevi tanta coisa hoje, não?

Será que lerão tudo?... Será que alguém sequer vai ler?...


Tanto melhor se não lerem: será então nosso pequeno segredo.

Bom domingo, São Domingos!

Amen-Axé-Shalom!

sábado, 4 de abril de 2026

Breve carta ao Arcano 4

Tenho me perguntado, já há algum tempo, se você também sente a leveza no ar quando nossos caminhos se cruzam. Se você também sente um raio atravessar ao menor contato ou se também tem, às vezes, a sensação de estar se afogando em sentimentos que não sabe bem como nomear.

Há uma liturgia nesses nossos encontros, um ritual cheio de símbolos e significados que não precisa de palavras para ser sagrado.

Eu te batizei sem saber que você me ressuscitaria, e te coroei Imperador em segredo, num ritual de portas trancadas em meu reino. Porque a realidade comum parecia pequena demais para a força da sua presença. Para o Mundo, somos apenas dois acadêmicos atravessando o campus; para mim, é o encontro de duas forças que eu sinto que já se conheciam desde antes da primeira aula – uma familiaridade inexplicável dentro de um ambiente em que as ciências exigem explicação. Talvez por isso mesmo eu tivesse me sentido tão à vontade.

E talvez por isso também essa minha naturalidade se perdeu: era muito mais simples com nossos papéis pré-estabelecidos e bem delineados. Eu sabia o que fazer, até onde ir e quando ficar. E de repente, quando tudo ficou mais solto, fui perdendo o controle – assim como quando entro em pane se tento entrar no mar, justamente por não ter onde me segurar. Eu ainda não sei lidar com imprevisibilidades, e minha rotina tem sido me perder – e não é por você, é em você.

Existe uma nobreza no seu silêncio que espelha a minha própria procura por respostas: "Mas por quê?... Mas por que não?... E quando foi que isso mudou?..." – e sigo nesse looping infinito de controvérsias comigo mesma.

Não pretendo mudar o curso desse rio. Só desejo não me afogar nele em minhas noites insones. Então escrevo apenas para tentar me livrar do sentimento contra o qual sempre lutei, contra o desejo de te fazer saber que existe alguém que te lê além da formação e das convenções: te lê as entrelinhas de humanidade. Alguém que reconhece a sua soberania e que, de longe, tenta sustentar o olhar e falha miseravelmente – simplesmente porque se tornou espelho demais.

Alguém que admira e se afeiçoa muito mais que gostaria, mas que te respeita e que te lê enquanto o mundo passa distraído.

Ainda tenho muito a dizer, só não sei ainda COMO.

Da sua,

Imperatriz (Arcano 3).

Chag Pessach Sameach!

sábado, 10 de janeiro de 2026

Meu querer (poema)

Quero você
E esse querer vem muito antes d'eu querer.
Me vi perdida em mim mesma
Entre transbordar pelos olhos
E me vendar.
Mas o céu, a lua, o mar,
O sol que nasce trazendo calor
Me fazem lembrar toda vez que penso em esquecer
Que te quero.
E que sempre quis.
É um querer que criou raiz
No improvável solo do meu ser.
Te querer virou tormento e paz.
Júbilo e lamento.
Alimentar ou deixar morrendo
De inanição?
E o que fazer com esse choque que percorre o corpo?
Com os sobressaltos que se fazem ao peito?
Esses sonhos que se fazem em leito
Me deixando sem dormir?
Sentes o mesmo ou é só impressão
De que pensas em nós no escuro e na solidão
Do quarto à noite lembrando a colisão
Que nos une e repele mesmo sem intenção?
Eu nunca quis querer
E vejo em teu olhar: também não.
Mas a paixão, essa tirana
Invadiu nosso coração
À revelia.
O que fazer?
Não sei.
Só quis dizer pois sinto derreter
Com o calor que me provoca às entranhas.
Perdoe minha sanha de tentar fazer poema:
Não é deboche, aposte.
Não é teorema, é canção.
Se ainda puder rir, acene.
E eu poderei abrir os braços pra que você se assente
De vez em meu peito,
Sem receio ou razão.

(Dannie Machado – Niterói, 10/01/2026.)

domingo, 30 de novembro de 2025

Quando você entrou em mim como um Sol no meu quarto

"Mais uma noite quente de verão. Deitado, olhando pro teto e com um dos braços acima da cabeça, tentei dormir.

Mal fechei os olhos e um cheiro de tangerina invadiu o quarto, junto com um vento que eu não sabia de onde vinha. Abri os olhos e era ela: vinha em minha direção, sua longa saia esvoaçante, os cabelos revoltos pelo vento e trazendo um sol vivo no olhar. Vestia a mesma roupa que exibia sua cintura faceira e me deixou sem reação no último encontro, mas dessa vez, as peças eram alvas.

Assustado, pisquei os olhos e os esfreguei com a mão que eu havia pousado sobre a barriga. Ela se aproximava pé ante pé, como quem brinca na corda bamba. Olhei pro lado pra me certificar de que quem dormia ali não estivesse vendo o mesmo que eu: não havia mais ninguém.

Ela então chegou perto da cama e, com a leveza de uma entidade, se debruçou sobre mim. Olhou dentro dos meus olhos e me farejou como uma onça no cio. Depois foi descendo ao meu peito e me esfregou sua cabeleira como uma gata pedindo afago. Eu não tinha reação.

Queria mandá-la embora, dizer que aquilo era uma loucura: fazer o certo a fazer. Mas ao mesmo tempo, eu só queria mergulhar mais fundo.

Ela então subiu de novo e me encarou face a face. Seu cordão de aço com pingente misterioso escapou de dentro de seu decote e balançava, tocando meu queixo. Respirei do hálito que sua boca exalava como se sugasse minha própria vida.

Uma de suas mãos apoiada acima do meu ombro agarrou meus cabelos e ela desfilava sobre mim aquele aroma delicado. Tudo era irresistível demais pra resisti
r.

– Então, é você a Serpente do meu Paraíso?... – sussurrei. 
Sem parar de dançar sobre mim, respondeu de forma maliciosa:
– Todo Jardim do Éden tem uma Serpente e um Fruto da Árvore do Conhecimento... Você escolhe o que sou pra você..." – e entre os cabelos me fitou com um semi-sorriso de quem queria testar minha sanidade.

Sanidade esta que perdi nesse momento: a mão que eu tinha pousado sobre a minha cabeça agora agarrava seus cabelos rebeldes pela nuca, e tentava pressionar seus lábios rubros contra os meus. Ela resistia: mostrava os dentes, oferecia a orelha, me olhava como quem estava no comando.

Ainda sobre mim, se desvencilhou e ergueu mais o tronco: pegou minha mão e juntos abrimos vagarosamente o zíper de seu corpete, enquanto ela dizia:
– Então... Parece que você fez sua escolha...

Com a voz entrecortada pela respiração ofegante, suspirei e olhei pro alto:
– Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada... – e engoli seco.

Sorrindo como quem vence uma batalha pela minha alma, ela termina de abrir o zíper e orienta minhas mãos pelo seu corpo. Minhas mãos finalmente exploram aquela cintura que tirou meu sono.

Ela continua dançando sobre mim, volta a se debruçar. Me beija e seus gemidos em meu ouvido soam como canto de sereia a me levar pro fundo das águas...

Minha língua então explora as curvas de seu colo: sua respiração intensifica, os suspiros agudizam, seus olhos reviram e seu corpo se abre e se entrega pra mim como se o próprio fato de me trazer de volta à vida a levasse ao êxtase (onde chegamos juntos, num clarão de luz).

Então acordei. Molhado de fluídos que não sei identificar ao certo e buscando sua presença ainda tão presente em meu quarto. Eu queria ficar ainda deitado pra retomar o fôlego, mas olhando aquele outro corpo que dormia ao lado e minha própria situação, achei melhor acelerar uma ducha e vestir roupas limpas. Me senti um adolescente tentando esconder as peças sujas no fundo do cesto, esperando que ninguém reparasse ou comentasse. Não tenho mais idade pra essas coisas...

Voltei a deitar, mas o sono não vinha: queria revisitar aquele cenário, voltar a sentir os cheiros e a pele. E se eu mandasse uma mensagem?...

Longe demais. Deixa pra lá. Uma pena..."

terça-feira, 11 de novembro de 2025

O Coração Selvagem

Havia um hiato de calendários e silêncios que me fez supor a ausência como regra. Mas aquela segunda-feira ignorou meus pressupostos.

Não foi um desses avistamentos furtivos pelos corredores. Dessa vez você parou. O sorriso, com aquela modulação que desarma a pressa, transformou o meu grupo à sua órbita. Enquanto as palavras de Durkheim costumavam me tirar o sono, ali, sob a luz do sol de Niterói, no ângulo exato que transformava sua íris em vitral, o cansaço virou observação participante.

Alguém mencionou a complexidade de outrem, e você, em sua síntese elegante, foi interrompido por um ato falho coletivo — ou melhor, por uma saudade que escapou da boca de outra pessoa mas que, pro meu espanto, trazia o meu timbre. A "declaração de amor acadêmica" serviu de escudo para minha própria mudez. O riso que se seguiu, de timidez mineira, me foi o único "fato social" relevante do dia, me relaxando da tensão de uma adolescente que flagra seu próprio diário violado.

Você se despediu, prometendo-me um de seus dias da semana. Eu, que já decorara o cronograma dos ventos, apenas observei teu recuo, segurando a pasta como quem carrega o tempo de quem quer ficar. No fim, ficamos nós, a "turma do outro bairro" – eles brincando sobre "crushes intelectuais" e eu calando o sobre o essencial. Sobrou Belchior na cabeça, o coração selvagem no peito querendo arriscar a incerteza, mas também ficou a certeza de que certas presenças não precisam de matrícula para ocupar todo o espaço.


Será que um dia descobrirá os beijos que escondi nas dobras do blusão?...


Axé-Shalom-Amen!

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Os Lírios Universitários ("É Primavera!")

Habituei-me à ausência como quem se adapta a um novo campo de estudo. Os encontros semanais viraram dados arquivados sob a pilha de tarefas domésticas e acadêmicas. Entre a mudança de casa e as novas leituras, a ideia de te ver virou uma variável descartada pela lógica da vida adulta.

Mas o destino é um coreógrafo debochado. Entrando no saguão após descer as escadas em ritmo de Raul Seixas, a "maluca beleza" quase colide com o seu objeto de estudo favorito: você, a pasta indefectível e um sorriso de quem também não esperava a trombada. O breve diálogo – um "tudo bem?" apressado – foi o prelúdio de uma série de sincronias inexplicáveis: o pé da escada virou nosso território de encontros eventuais.

Em determinado dia, graças ao meu insistente ritual com o batom vermelho e os cabelos após o almoço – sob o olhar impaciente dos colegas – o tempo se ajustou para que nos cruzássemos.

Você vinha em meio a um grupo, desvencilhando-se a passos rápidos, fazendo o cabelo saltar sobre os olhos. No corredor estreito pela montanha de carteiras abandonadas, a fila indiana nos forçou à uma proximidade absoluta. O sorriso largo, o toque no ombro e o cheiro – aquela mistura de couro, cigarro e automóvel – criaram uma atmosfera que a teoria não explica. Se fosse uma carona, eu definitivamente não perguntaria o destino.

À porta da sala, ainda sob os fortes efeitos da sua presença, ouvi o coro dos amigos sobre a saudade das suas aulas e apenas me rendi: semicerrei os olhos, soltei os ombros e deixei um suspiro adolescente escapar, acompanhando o grupo com a honestidade de quem ainda guarda o cheiro do encontro na pele. Quem sabe o próximo esbarrão não rompe os muros da instituição?


Axé-Shalom!

domingo, 3 de agosto de 2025

Àqueles que virão depois de mim,

Muitas histórias ouvirão sobre mim: umas boas, outras nem tanto. Não importa. Assim como também ouvi histórias sobre aqueles que me precederam e que ao longo do tempo percebi que não eram bem da forma que me contaram. Não venho por meio desta carta explicar ou justificar as minhas histórias, mas contar das buscas e descobertas que tive ao longo dos últimos meses.


Nesses tempos, caminhei por labirintos desafiadores – não porque foram difíceis, mas justamente porque eu já estava habituada. Aprendi a reler cada linha escrita há tantos anos por meus ancestrais, mas que ainda me desenham por dentro e por fora. Revisitar minhas próprias rotas desde a mais tenra infância, tempos de escolinha, de comida de vó. Admirar espelhos impressos ainda em preto e branco e até mesmo aqueles espelhos que foram quebrados nos rumos que a humanidade tomou. Reconhecer em mim olhos, cabelos, lábios, braços e mãos que hoje carregam marcas de aulas de piano e também de muito trabalho duro. Que hoje tentam reproduzir as iguarias que provei em família e até mesmo aquelas que sequer provei e quase se perderam na linhagem. O beiju e o cuscuz do sertão de Sergipe, que minha avó aprendeu de sua mãe indígena. A tradição espanhola do “chuchilo” e da páprica caseira que minha bisavó manteve, mesmo já tão abrasileirada que cultuava Pretos Velhos e benzia vizinhos que a buscavam com problemas do corpo e da mente.


Busquei nomes, lugares, fotos e as histórias escondidas por trás de cada uma dessas coisas. Revi uma foto rara da minha outra bisavó preta, lindíssima e imponente, com as mãos nas cadeiras e me reconheci naquele gesto. Estive também mais íntima da cultura indígena (o que me lembrou muito da minha experiência há alguns anos de uma noite na Aldeia Maracanã ao redor da fogueira, absorvendo as tradições e aprendendo o que é resistência na prática), o que me instigou a tentar reconectar com a etnia de minha bisavó nordestina e me deparar com a longa história de resistência tupinambá liderada pelo chefe Surubi do povo de Itaporanga D'Ajuda.


Entendi que muito antes de entender a importância da aprendizagem através da oralidade, eu já vivia isso dentro do meu quintal, sentada no canto da porta de dona Amélia enquanto ela me ensinava artesanatos e o cultivo de plantas medicinais, coisas que às vezes invento de reproduzir. E é de uma forma talvez mais afetiva do que exatamente instintiva que passei e passo a vocês, meus filhos: o respeito pelas plantas, pelos animais, até pelas pedras. Valores da terra que são maiores que os do dinheiro. E também aprendi com vocês, quando me chamavam atenção a algo que eu já estava habituada demais pra me dar conta. Hoje vocês cresceram e sou eu que “ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome” – escrevi então pra que vocês se recordem de não se deixar habituar.


Vocês foram meus primeiros alunos da vida, me inspiraram a atuar na educação de várias outras maneiras, e hoje vim parar aqui: reaprendendo a aprender para poder transformar o mundo que desejo para vocês e os que virão após.


Então sigo em frente: levanto ao nascer do sol, beijo a imagem de Nossa Senhora da Conceição segurando as guias que dona “Concheta” me ensinou mesmo em sua ausência, atravesso a cidade que cansei de atravessar (e que também foi atravessada pelos que vieram antes de mim), e me reúno a outras vivências, saberes e formas de experimentar o mundo, na esperança de continuar semeando um mundo melhor e mais justo para todos os povos e indivíduos. 


E a vocês, filhos meus, de sangue e de afeto, só desejo que guardem convosco a mensagem: não deixem de ouvir o vento que traz a voz dos antepassados, nem de semear aquilo que queremos que os que virão depois de nós venham a colher. 


Rio de Janeiro, 10 de julho de 2025.


(Trabalho final da disciplina "Antropologia & Educação I".)

sexta-feira, 2 de maio de 2025

No terceiro dia, as portas se abriram

Há algo que pulsa por baixo da terra e do tempo.

Um fio invisível que nos conecta àquilo que fomos, e àquilo que ainda seremos.
Nessa madrugada, não acendi velas, não recitei salmos antigos.
Mas cantei com as vozes do passado.
Em ladino.
Em lágrimas.
Em silêncio.

Deitei ao lado da imagem de minha bisavó - ou de Nossa Senhora, ou de ambas.
Quem pode dizer onde termina uma e começa a outra?
A chamei como quem chama por casa.
Chamei meus guias, minhas entidades, minhas raízes que respiram fundo sob o solo da memória.
E pedi luz.
Não para ver o mundo…
Mas para ver o caminho.

No terceiro dia, a resposta chegou.
Simples. Sutil. Como se sempre estivesse ali.
Como se só esperasse que eu abrisse o peito, e as portas da alma.
Ali estavam os nomes esquecidos.
Os ancestrais perdidos.
As chaves de uma linhagem soterrada, mas viva.

Descobri então que nem todo ritual precisa de altar.
Às vezes, tudo o que precisa é de uma cama,
uma canção antiga,
e o coração disposto a ouvir o que o mundo espiritual sussurra nas entrelinhas da noite.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Resposta ao Tempo II

 17:


Eu quis correr num caminho de pedras:

Prendi minha sandália e caí.

As coisas que vi e fiz, achei que eram certas,

mais fortes os erros que não cometi.


Deve bastar, essa é a cruz...

Mas é tão tarde, eu preciso voltar.

Quando voltares, apague a luz 

Pr'eu ter certeza que vou me encontrar.


Há quanto tempo...

Que eu nem vi passar.


44:


Eu quis montar meu castelo de cartas:

Achei Rei de Espadas, perdi.

Mágoas e dores eu deixei pela estrada – 

Segui meu caminho, eu não desisti.


Sei me bastar, essa é a luz,

Mas ainda sinto que vou te encontrar.

Se não voltares, marque uma cruz 

no ponto exato onde vou te enxergar.


Faz tanto tempo...

E ainda assim, está.