Eu sei que vocês olham pra mim e sentem decepção. Na verdade, eu sempre senti esse peso em cima de mim desde muito pequena, sem entender muito o porquê: talvez por estar sempre sendo silenciada, por sempre ter me sentido excluída em qualquer expressão de afeto, por ter vivido pulando de casa em casa de parentes, por volta e meia ter sido esquecida na escola... Ou talvez simplesmente por ter passado a vida fazendo das tripas coração pra tentar agradar de alguma forma, sendo uma excelente aluna, amada pelos professores, conquistando as melhores notas e buscando a perfeição em tudo que me propus a fazer - mas parece que nunca foi suficiente, né? E continua não sendo até hoje, não importa o que eu faça.
Vcs lembram que eu dizia na adolescência que assim que eu fizesse 18 anos, ia dar um jeito de sair de casa e me livrar desse ambiente tóxico daqui? De um lado, violência verbal e física, além de invasão de privacidade. Do outro, total indiferença. Pois é: eu não saí de casa pra "formar família" não, eu quis FUGIR. E no desespero de sair de um buraco, não pude enxergar que eu caía em outro - mas quando finalmente enxerguei, era tarde demais e meu primeiro filho já estava a caminho.
Vocês podem achar que isso é tudo bobagem, mas por essas e outras, vivi em depressão por cerca de 30 anos. E eu pedi socorro quando eu tinha 15 anos. Pedi pra me levarem no médico porque eu sabia que eu era diferente dos amigos da minha idade, e pq eu não aguentava mais pensar em morrer TODO SANTO DIA desde os 12 anos, quando por muito pouco, quase tentei contra minha própria vida - vocês nunca souberam pq não estavam em casa e eu aproveitei pra tentar alcançar a embalagem de veneno de rato no alto do armário do banheiro. Eu já estava me esticando trepada em cima do vaso quando o telefone tocou. Era minha saudosa tia-avó com uma conversa totalmente non-sense. Ainda atordoada, eu tentava entender porque ela tinha ligado perguntando por vocês se vocês tinham saído dizendo que iam vê-la. Então ela me distraiu até vocês chegarem e desligou. Até hoje nada me tira da cabeça que foi coisa do meu Anjo da Guarda... Mesmo assim, eu não conseguia tirar da cabeça a ideia quase obsessiva de não viver mais - mas aí eu lembrava desse dia e isso me segurava por mais um dia.
E eu sobrevivi a tiro, a uma relação abusiva, uma separação difícil, um boa-noite-cinderela no dia do meu aniversário de 30 anos em que me foram introduzidos objetos que até hoje não sei bem quais foram; vi os filhos pelos quais dei minha vida indo embora, passei fome... E eu me perguntando pq eu ainda resistia. Até que entrei na faculdade e as coisas começaram a mudar. E aos poucos a depressão me abandonou e eu achei que já podia me livrar dos 19 comprimidos diários que eu tomava já que, segundo vcs mesmos, "é tudo bobagem, tá tomando remédio à toa!". Não demorou pro auge das desgraças da minha vida estourar: um surto psicótico que os obrigou a me internar. Não tenho trauma nenhum da internação apesar de não ter sido fácil, mas guardo um trauma muito grande do período de readaptação. Fiquei extremamente sensível a qualquer tipo de estresse. Tenho medo de ter uma nova crise, porque é horrível se sentir incompreendida. Por isso tento fazer tudo certo - o que não me impede de me sentir incompreendida da mesma forma.
Eu nunca fui uma pessoa de grandes luxos. Todos os dias agradeço pelo teto e por cada refeição - pq só quem já não teve o que comer de verdade, sabe o valor que qualquer grão de feijão ou arroz tem. Mas vocês já pararam pra se colocar no meu lugar??? Uma mulher da minha idade, com as minhas condições físicas e mentais, que perdeu tudo, hoje dorme na varanda da casa dos pais sob uma cabana improvisada pra aliviar um pouco a intensidade de sons e luzes; que sempre tá disponível pra cozinhar algo gostoso pra todos por prazer (inclusive a quem nem me dirige a palavra ou se lembra do meu aniversário), que está sempre à disposição pra ajudar no peso das compras, ou mesmo em ajudar em outras tarefas da casa (inclusive na limpeza, quando consigo), ao mesmo tempo em que sou solenemente silenciada, ignorada, diminuída, ainda que eu esteja falando de um assunto sobre o qual tenho respaldo porque - vejam só! - eu ESTUDEI.
Vocês devem pensar "do que adianta estudar tanto se não está trabalhando?". Deixa eu responder: no princípio porque EU ERA TROUXA; porque eu ficava preocupada de deixar VOCÊS sem meu suporte ao longo da semana. Depois parei pra pensar e vi que, pelo desrespeito que vocês têm por mim, eu certamente não sou tão necessária assim. Mas pesquisando o mercado de trabalho, as poucas chances que há pra mim na minha idade prejudicam minha saúde mental e podem me levar à uma nova crise - a não ser que eu estude mais, gostem vocês ou não. E também penso em ter um negócio próprio: já pensei em mil coisas que eu simplesmente não consigo concretizar. E sabem por quê? Por que essa armadura aqui de "mulher foda pacaralho", de "liderança nata" é apenas instrumento de sobrevivência: por dentro ainda me sinto aquela criança insegura que vai dar seu máximo, mas nunca será o suficiente pra nada nem ninguém (e que se surpreende muito - e nem sempre acredita - quando recebe elogios e declarações de admiração e afeto de outras pessoas).
E onde quero chegar com isso? Bem, não sei se vocês sabem ou entendem mas estou pra fazer uma colposcopia com biópsia, que aliás estou esperando há muito tempo pro SUS me liberar, desde o ano passado, quando meu preventivo detectou lesões nível 2 e 3 no meu colo do útero (o nível 3 é o último estágio pra se tornar um câncer). Não estou de fato preocupada, mas quero logo fazer esse exame pra saber se o câncer já me alcançou de fato - pode ser que sim e pode ser que não, mas sinceramente, às vezes torço pra que seja sim: minha vida está perdendo cada vez mais o sentido, me sinto mais mal tratada que os cães dessa casa; a única coisa que me prende ainda nesse mundo são meus filhos, mas eles já estão adultos e não precisam mais de mim - e se precisarem, eu sempre estarei a postos "do lado de lá". Também não quero mais ser um elefante branco no meio da sala de vocês. E eu acho que já deu. Não parece não, mas minha alma está cansada. É um cansaço que fica aqui dentro, roendo um buraco no peito, deixando só um rastro de vazio. Se eu me for, eu vou tranquila: fiz o que quis, da melhor forma que pude. Nunca fui perfeita, mas a Vida me ensinou que querer a perfeição é disputar ego com Deus - e quem sou eu na fila do pão, não é mesmo? Sei que serei bem recebida do outro lado - a família espiritual (ao menos ela!) nunca me abandonou e sempre segurou minhas pontas.
Então, é isso. Eu só queria que vocês soubessem mesmo - e com certeza, eu nunca conseguiria me fazer expressar porque meu pai ou falaria por cima e me interromperia, ou me ignoraria ao dar mais atenção aos vídeos do celular. Ou ainda minha genitora tentaria justificar dizendo que "não se lembra", que é tudo coisa da minha cabeça ou mesmo culpa minha. E eu não quero mais disputar nada não, sabe?...
Tô cansada, muito cansada...