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terça-feira, 30 de junho de 2026

Hoje a terra avisto em você

Cheguei apressada, achando-me atrasada, mas aparentemente cedo demais – preciso de um relógio de pulso: encontrei colegas descontraídos pelo corredor, a porta da sala designada para a aula escancarada, poucas carteiras ocupadas. A minha favorita, logo na frente, estava ali, livre pra mim. Sentei, me acomodei, separei meu material e como vi que ainda teria alguns minutos, fiquei me distraindo no celular. Uma colega passou por mim pra sentar na carteira ao meu lado e perguntou, estranhando: "ih, ele ainda não chegou não?". Respondi quase em câmera lenta, sonolenta por causa da rinite que me castigava e sem tirar os olhos da tela.

Meu "não" lentificado quase virou engasgo quando percebi que, da luz que entrava pela porta aberta, uma silhueta surgia com passos rítmicos, exibindo uma maleta. Conforme ele foi adentrando a sala, a aura solar que vinha do exterior foi revelando seu rosto: era ele, que olhava diretamente pra mim e apresentava um leve sorriso, passando um pouco de confiança e alegria em me ver (afinal, entre feriados e problemas práticos dele, foram 10 dias de hiato). Como adolescente desajeitada, só consegui desviar timidamente o olhar e sussurrar à colega que ele tinha chegado.

Logo atrás, os outros alunos também adentraram e a aula teve início. Como dessa vez eu fiz questão de estudar o texto proposto, fiquei buscando brechas para interagir, entre uma explicação e outra, mas eu não conseguia pensar em nada de tão sonolenta. Sobre o tablado, com o livro nas mãos, às vezes eu percebia seu olhar instigador por cima dos óculos visivelmente novos, como quem esperava algo. Só me restou aceitar que nada disso irá passar de lembrança em breve, já que a prova já estava marcada pra dali 10 dias e fim de disciplina. Fiquei na minha, apenas concordando com a cabeça e um sorriso quando ele falou das questões atuais do Senado.

Mas parece que isso mexeu com ele: ele voltou aos poucos a ser aquele professor mais agitado, gesticulador, tirando mil exemplos práticos da cartola. E foi numa dessas que demorei mas me surpreendi – falando sobre a lei seca, ele lembrou: 

"Antigamente, era muito comum as pessoas beberem sem limites e depois pegarem no volante. Esse é um exemplo de que leis podem mudar os costumes – por exemplo, se eu saio e vou beber, deixo que ela (e aponta pra mim) dirija; os casais hoje em dia combinam entre si...", então se apressou ao tentar se recompor: "assim como amigos tbm quando saem, combinam de pedir um carro por aplicativo...".

E acho que isso me encorajou. Na verdade, mais adiante eu realmente fiquei meio confusa com a concepção de uma ideia e ele, encostado num canto do quadro ao expô-la, ficou observando minha cara de "meme da Nazaré confusa" olhando pro outro canto. Chamou o meu nome e ao percebê-lo me observar, muito timidamente, a dúvida foi saindo quase distraída e algo parecia tê-lo acendido, pois desandou a explicar de todas as formas possíveis pra que não ficassem dúvidas. Ao fim, se posicionou à minha frente, ainda sobre o tablado, óculos novos sobre o nariz marcante, e um olhar de quem, se pudesse, me chamaria pra tomar um chopp pra gente debater todas essas coisas. Sorri agradecida porque eu tinha entendido o tal conceito.

E a aula chegou ao fim. Enquanto ele fazia a chamada, eu ia guardando minhas coisas ainda sonolenta e quando me dei conta, boa parte da turma já tinha saído e a chamada concluída. Uns outros dois alunos ainda o abordaram, um em cada lado de sua mesa, então fui saindo de fininho (porque da última vez que tentei me aproximar após a aula, ele nem deu conta de responder meu voto de "bom feriado" – ainda que, quando eu já estava distraída quase na porta da sala, tenha ouvido ele gritar em resposta, mas nunca saberei se foi realmente pra mim). Fui então passando discretamente e o percebi me observando sair. Sussurrei, meio sem graça, um "tchau" baixinho pra não incomodar, e ele acenou com um sorriso e fez questão de cumprimentar mandando "um abraço!". Sorri dando uma piscadinha inconsciente (o que faço com todo mundo) e tive a impressão de ter sido recíproca. Corri pro bandejão.


O dia passou, andei pra cá e pra lá, falei com gente, e decidi que era hora de voltar. Caminhei até a estação das barcas e lá dentro, um músico independente tocava "Knocking on heaven's door", o que me deu, por si só, um ânimo diante da exaustão. Até que lembrei do ocorrido com o "teacher crush" na aula da manhã. Minha mente foi então desenrolando todo o novelo dos acontecimentos, não só do dia mas dos últimos meses e, mais uma vez, olhando o mar pela brecha da vidraça, me perguntei: "será?..."

Automaticamente o músico começou a cantar: 

"Estranho seria se eu não me apaixonasse por você... O sal doce para os novos lábios..."

Quando as portas para a plataforma de embarque das barcas se abriram, ainda atordoada, busquei manter meus passos firmes por entre os transeuntes que seguiam a mesma direção. Ainda deu pra ouvir o som do músico ficando cada vez mais distante, lá atrás:

"(...) Colombo procurou as Índias, mas a Terra avisto em você.

O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário (...)"


(30/06/2025)

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