“Vós sois deuses” – está lá nas Escrituras. Inicialmente no salmo 82 e, no novo testamento, Jesus reafirma em João 10:34.
Somos feitos de Luz e Sombra, e Deus nos fez à Sua imagem e semelhança. N’Ele também estão contidas todas as dualidades: bem e mal, luz e sombra, feminino e masculino, entre outras – n’Ele, tudo está contido. E, como Suas cópias, nós reproduzimos todas essas contradições. Há dois cães dentro de nós, mas nos é dado o livre-arbítrio pra alimentarmos aquele que faz mais sentido.
Vivemos sob a rigidez de uma estrutura milenar na qual só um lado dessa dualidade é não só aceito, mas respeitado: o Machismo. Dentro dele, tudo o que é masculino é validado, respeitado, aceito, contanto que neguemos o Feminino presente nos indivíduos e na sociedade; só o Masculino tem valor. Por isso, alguns seguimentos religiosos como o cristão, ilustram Deus como um HOMEM, como sinônimo de superioridade. Ensinaram-nos a tratar apenas o homem como válido, como respeitável, como “correto”. A nós, mulheres, só restaria silenciar, abaixar a cabeça e dizer “sim” porque, afinal, nos convenceram de que somos fracas, erradas, pecadoras e péssimas influências – assim como Eva teria sido a “culpada” por Adão, o "pobre coitado" do Jardim do Éden, ter mordido do fruto proibido em Gênesis.
Inspirados por essa cultura hegemônica, tendemos a reproduzir essa cultura: homens, os pobres coitados, tão fracos e indefesos, só caem em erro porque mulheres (esses seres tão vis e sorrateiros quanto a Serpente bíblica) os induziriam a isso. Não importa o que façamos.
“Obedeçam ou serão punidas” – obedecemos e, ainda assim, não conseguimos escapar do açoite. “Libertem-se”, e continuaremos a ser punidas da mesma forma.
Sei do que falo porque, como mulher dentro desta estrutura machista, já obedeci e me roubaram de mim. E quando decidi me libertar do jugo injusto, fui chamada de puta pra baixo. Não foi um só, foram vários – e não foram só homens, mas também mulheres que sofrem presas às mesmas correntes que me condenaram. Observem que não condeno indivíduos pelo sexo biológico ou pelo gênero com o qual se identificam, mas falo sobre a estrutura societária na qual vivemos.
Todo cesto tem suas maçãs podres e suas maçãs douradas. Há gente boa e gente ruim em todos os sistemas, em todos os grupos, independentemente de gênero, sexualidade, idade, classe social, entre outros marcadores. Não estou aqui pra apontar esta ou aquela pessoa, apenas pra apontar a estrutura sob a qual todas nós estamos inseridas e que tenta nos marcar como gado, criando rivalidades que nunca existiram. Eu sempre tive amigos homens muito honestos, já amei homens honestos e outros nem tanto (sendo aqui muito otimista). Em todos procurei acreditar, pois ainda tenho fé na humanidade – não à toa escolhi a Antropologia pra nortear meu caminho e minha vida, e tem sido ela meu maior instrumento pra desconstruir padrões dentro e fora de mim. E é graças a ela (com auxílio da fé que carrego em mim; do contato espiritual que a mediunidade me proporciona) que tenho repensado estruturas que tentaram me carregar até aqui. Estruturas manipuladoras, enganadoras, que liquefazem nossa autoestima feminina (inclusive a do feminino que também mora naqueles indivíduos que se identificam como homens). Já dizia Pepeu Gomes, né? “Ser um homem feminino não fere meu lado masculino” – bem, pelo menos não deveria. Não nos dias de hoje, em pleno século XXI.
Vomito o grito de todas as mulheres que tiveram sua alma assassinada por masculinidades, pela vaidade masculina. Vomito as feridas que homens que não têm medo nem vergonha de sua fragilidade têm sofrido ao longo dos tempos. Alimento-me do Amor que recebo e recebi de todos aqueles que escolheram amar, independentemente das circunstâncias. Eu gostaria de abraçar a todos. Eu gostaria de abraçar a todas.
Somos todos completude, conforme Deus nos fez (à Sua imagem e semelhança). Somos todos Yin e Yang; feminino e masculino que se encaixam de forma interdependente. Somos Doação e Recepção, como um eclipse, onde Sol e Lua se complementam. Somos espelhos que refletem aquilo que nos é mostrado, seja o mundo bonito ou doente, ainda que, por vezes, estejamos embaçados pelo que as estruturas nos impõem.
“Escrevo pra livrar-me da emoção”, escrevi certa vez num poema. Hoje escrevo pra livrar-me do jugo que o Machismo nos impôs, a todos nós que, de uma forma ou de outra, fomos feridos por ações de um ou outro indivíduo que maculou o que temos de melhor em nós.
Axé-Shalom-Amen!
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