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quarta-feira, 26 de março de 2014

You're gonna hear me roar!

E nesses dias de climas tão extremos, me questiono novamente: Que sou eu? Não me pergunte, pois eu não sei a resposta. Antes de dormir, com os 5 comprimidos diferentes que uso, permito-me parar e contemplar as medicações na minha mão. Conto e reconto prá saber se não esqueci nenhum. Eu já devia estar acostumada, mas com mais um medicamento receitado, acabo me confundindo.

Não lembro quando tudo começou. Só lembro de ter tentado tratar um problema, que trouxe outro, que trouxe outro... Meu laudo médico e minhas receitas parecem mais uma lista de mercado. Quando me vi robotizada pelo uso do Haldol, recebi mais uma medicação prá lista. A princípio doeu - chorei como se não houvesse amanhã - mas será que na vida do bipolar existe amanhã?

Nós nunca sabemos o que vamos sentir daqui a 5 minutos, como pensar no amanhã? Mas estou bem, não vou reclamar: enquanto tomo minha medicação certinha, me sinto estável, sem rompantes e sem depressões. Quando lembro de mim como era antes do tratamento ou quando paro com os remédios, me agarro ao tratamento, porque não quero mais viver aquilo. No entanto me questiono se toda essa estabilidade sou eu mesma ou se só virei uma outra versão de mim mesma. Com a estabilidade meu dom de escrever, cantar, emocionar parecem ficar adormecidos - por isso minha ausência do blog por tão longo período. As palavras que antes saltavam dos meus dedos através do teclado parecem ter me abandonado. Além do mais a impregnação de Haldol me transformou num ser robotizado, parecia que eu não era eu, eu não tinha coordenação motora, tinha muitos tremores, meus olhos estavam estranhos, enfim, eu era a cópia da imagem da minha mãe que tive a vida toda. Tive muito medo de ficar imprestável. Aliás, morro de medo de me tornar inapta à convivência social ou inapta a tarefas do dia a dia. Eu quero trabalhar, ser alguém!

Ando num período conturbado, entre problemas de família, problema nos estudos e problemas financeiros. Não gosto da sensação de impotência (quem gosta?), e robotizada pelo medicamento, eu me sentia ainda pior. Vejo amigos com o mesmo problema pedir aposentadoria por invalidez, mas isso seria minha derrota. Eu decidi que quero trabalhar, ter minha ocupação, ter também meu dinheiro suado, só quero ser normal.

A questão é: qual é o meu normal? Quem sou eu? Sou os medicamentos que tomo?

Seja como for, não vou parar com eles. É graças a eles que posso buscar uma vida normal. E o normal não pode ser um martírio prá mim. É isso que tenho que construir.

Shalom!



domingo, 2 de março de 2014

Sem Você

"Você não tem aparecido tanto
Mesmo assim tão presente dentro de mim
E cada lágrima que cai do meu pranto
Pétala caída nesse meu jardim

Jardim de nomes, de fotos, olhares e cartas
Jardim tão profundo, parece um baú
Onde guardo meu doces, meus dramas e facas
Onde aprendo a distância entre o norte e o sul

E quando aparece, parece um encanto
Um golpe de frio, golpe de calor
Parece um menino com asas, um sábio, um santo
Mistura de doce, salgado e licor

Às vezes pareço não sentir sua falta
Mas quando vejo o Corcovado e o mar azul
Só penso em dizer-te palavras sensatas:
'It's gonna be alright, baby, no more blues'

Eu tenho feito tanta coisa que não quero pensar
E tenho pensado em tanta coisa que não quero contar
E sei de tanta coisa que só penso em vencer:
como pode ser meu destino sem você?"

(1998)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

FELIZ 2014!

"O amor que vive em mim 
   Vou agora revelar 
      Este amor que não tem fim 
         Já não posso em mim guardar 
            Eu amo muito você 
            Eu amo muito você 
         Eu não vou mais me calar 
      Eu não vou mais esconder 
   Este segredo guardado 
Bem lá no fundo do peito 
   Eu amo muito você 
   Eu amo muito você 
      Não adianta fugir 
         Não adianta fingir 
            Já me cansei de sofrer 
               Por não poder lhe dizer 
            Eu amo muito você 
            Eu amo muito você 
         Nem me interessa saber 
      Se alguém vai condenar 
   O meu amor é maior 
Do que a Terra e o mar 
   Maior que o céu e as estrelas 
      Maior que tudo que há 
         E se um dia eu me for 
      Para onde Deus me levar 
   Mesmo assim, meu amor 
Com você vai ficar..."

(Caetano Veloso)


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

04/12/2013 (Somewhere out there)


Dia de Santa Bárbara. Atravesso o túnel Santa Bárbara sem me dar conta da coincidência involuntária.

Dentro do ônibus, fecho os olhos e prendo a respiração. Faço meu pedido, que só será atendido se eu conseguir chegar ao fim do túnel sem respirar. Coisas que fazíamos quando crianças...

E como a criança que fui, fiz o mesmo pedido de sempre. Aquele mesmo pedido que faço sempre que vejo estrelas cadentes, ou quando vejo um eclipse, quando vejo uma borboleta, quando apago as velinhas do bolo. O mesmo pedido que fiz ao amarrar minha fitinha amarela no braço. Aquela fitinha de Santa Bárbara.

Ainda faço o mesmo pedido que aquela menininha de 5 ou 6 anos, sentada numa rara calçada do Camorim, fez em pensamento, vislumbrando o morro Dois Irmãos entre os prédios do condomínio em que morava - e onde será que você estava?

Ainda faço mesmo pedido:

"Que dê certo. E que seja logo." 

Consegui! Cheguei ao fim do túnel e pude então respirar aliviada... Sorri. Sei que os anos passam e passarão, mas também tenho a certeza de que, se ventar mais forte, nós estaremos bem.

Epahey!
Shalom!





segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Between the Bars", por Madeleine Peyroux

"Beba, querido, fique acordado a noite inteira.
Você não fará o que queria, mas você poderia.
Você tem um potencial que nunca verá
Pelas promessas que você apenas faz.

Beba comigo agora e esqueça sobre tudo:
Sobre as pressões dos dias - faça o que eu digo.
E eu vou te deixar bem e mandar pra longe
as imagens presas na sua cabeça.

As pessoas com quem você esteve antes, que você não quer mais por perto
Que empurram e atropelam e não vão se curvar à sua vontade,
Essas - eu as manterei quietas.

Beba, querido! Olhe as estrelas... E eu te beijarei novamente entre as grades
Onde estou te vendo com as mãos no ar, esperando ser finalmente pego.

Beba mais uma vez, e eu o tornarei meu
E te manterei longe de tudo, fundo no meu coração
Longe do resto, onde eu te gosto mais,
Mantendo as coisas que você esqueceu.

As pessoas com quem você esteve antes, que você não quer mais por perto
Que empurram e atropelam e não vão se curvar à sua vontade,
Essas - eu as manterei quietas."


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"As canções que você fez prá mim"

Escrevo sobre nós, pois não sei escrever de outra coisa. Escrevo sobre nós pois entre minhas linhas posso derramar nossa realidade e sandice, nossos mistérios e enganos. Escrevo sobre nós pois, só assim, nos reanalisando constantemente, posso compreender em que língua cantam os pássaros.

Veja bem: escrevo sobre NÓS, não escrevo sobre mim e nem sobre você. Apenas sobre essa entidade que formamos quando nos conectamos de alguma forma. É o NÓS que me interessa, é o NÓS que me transforma. Não é e nunca foi o que você disse ou diz - é como se delineia em mim, ou como te atingem as coisas que posso ter dito.

Nenhum de nós somos perfeitos, estamos muito longe da santidade que enxergamos um no outro, mas somos assim, indesconectáveis. Mesmo tentando ser realistas, só enxergamos o que desejamos. Dialogamos pelo ar, mesmo na suspensão dos silêncios. Conversamos e desconversamos o tempo inteiro, somente tentando desconstruir o mal-entendido. "Que mal-entendido?", o que quero malentender, o que mantém o vigor de meus sorrisos, ainda que eu queira que seja tudo diferente. "A razão nunca sufoca o coração nessa menina...".

A coisa é tão suspensa que tende a despencar a qualquer momento. E quando todas as verdades forem desnudas, talvez entenderão outras estrelas que não a desse sistema solar pelo cenário que assistirão.

Enquanto isso, apenas espero...
Apenas espero...
Espero...

Ass: a Impaciente.

Shalom!

Euphoria

Hoje estou tão feliz comigo...

Em muito tempo, muito tempo mesmo, eu não olhava meu reflexo e ficava satisfeita com o que eu via. Era uma questão minha mesmo... Tem gente que tem desenvoltura com sua própria figura, mas eu nasci no time de quem não consegue gostar de si. Já foram vários antidepressivos e ansiolíticos para tentar curar, tudo em vão. E hoje, depois de ter feito as minhas escolhas nesse fim de semana sabático, finalmente consegui gostar do que vi em mim. Finalmente me reconheci como aquele ser ali falante, e concordei, num trato cosmológico, que aquilo correspondia à minha pessoa. Não apenas isso: gostei. Gostei de ser aquela ali. 

Hoje estou tão feliz comigo que dá vontade de chegar em casa e ainda tomar um café.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pílula para dormir

"Ele nunca faria o mesmo, pelo contrário...", pensava ela.

Mas ninguém é imune às dores de cotovelo. Essas dores, tão proclamadas, são capazes de provocar o impossível a acontecer.

"Ele nunca faria o mesmo"... Até que ele fez!

Do império da imensidão dos silêncios


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

É você?

Será você? É o prometido que seria enviado a qualquer momento? Aquele que poderia salvar-me de minha própria vida?

Será você que me salvará dos meus nós? Dos meus embaraços? É você aquele que me aceitará vida após vida, pro resto da eternidade?

Era você que só esperava a chance de se aproximar? Que aguardava pelo sinal divino? Era você quem esperava pelos meus erros apenas para perdoá-los?

Acordei baratinada, dei cabeçadas por aí, daí pensei se não era você. Se era você ou era quem ainda há de vir. Se não era você que viria já preparado para meus destemperos. "The perfect match" ou apenas mais um?

Pensei então ser melhor não tentar nada. Melhor não querer provas. Melhor viver e deixar viver, esperar pela bela surpresa que espero do destino, sem desesperar. É tempo de criar porcos... É tempo de simplesmente viver e estar satisfeita com o agora. Não quero mais pensar no que já foi ou o que ainda há de vir; quero ancorar no agora, sem deixar a sabedoria de fora desta vez. Talvez desta vez, desta vez seja... O que jamais seria ou o que jamais foi. Que seja. Só desta vez não estarei mais criando expectativas.

Cansei do personagem. Seja apenas o que é.

Shalom!

domingo, 10 de novembro de 2013

Do império da imensidão dos silêncios

O silêncio se instaurou. Talvez fosse mais dela, que parecia encantada com as poucas palavras trocadas ao telefone. Mas este, agora desligado, fez perceber a imensidão do silêncio que se instaurou.

Algumas frases ainda tentavam ecoar naquele vácuo, em vão. Ela já não o reconhecia: distante, quieto, quase não a encarava. Um dia aquela situação teria de ser enfrentada, não era? Ela só não entendia se ele mudou pelo que ouviu ou se mudou porque ela mudou primeiro.

Todos já estavam de pé esperando para desembarcar. Ele se despediu timidamente, coisa que ele nunca foi. Ela se esqueceu momentaneamente que ele descia um ponto antes. Observou-o descer e ele, como sempre, buscou automaticamente por seu olhar. Se despediram com os olhos, ele parecia forçar um sorriso, apertando os olhos. "Que bobagem", pensou ela, "ele só está cansado...".

Talvez ela tenha sido estúpida. Ela não tinha que provar nada a ninguém, nem dar satisfações. Foi sem querer que ela atendeu o telefone, mas ela quis se aproveitar da oportunidade. Ela não foi leal - ele nunca faria o mesmo, pelo contrário. Ele ainda a protegia, mas ela não viu motivos para poupá-lo da realidade. Talvez agora ele entendesse o que ela passou, mas essa atitude infantil não a garante nada, nenhuma resposta. Para que ela se levava àquilo?

Um ego ferido pode se manifestar das maneiras mais ridículas.

Shalom!

"Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?"
Paulo Leminski