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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Peito de aço e Coração de Sabiá

Dei-me conta de que, por amar demais, estou sempre sendo forte por 2. Mas quando olho em volta, parece nunca haver alguém que me ame o suficiente pra ser forte por mim também.

Já nasci com esta carga; talvez tenha aprendido a ser forte por 2 por questão de sobrevivência. De qualquer maneira, talvez eu tenha levado esse fardo longe demais... E certamente, não havia necessidade: estive sempre dando o melhor de mim enquanto permaneço de mãos vazias - às vezes até com feridas abertas, por terem me jogado pedras. Estou sempre me esforçando a dar passos à frente mesmo quando a dor e o desprezo me puxam pra trás. E o que tenho recebido, enfim?

Sinto como se tivesse corrido a São Silvestre carregando o planeta nas costas - parei, me isolei pra tomar ar e perceber. E quero voltar a correr mas... Será que ainda me resta algum resquício de força?

Estou serena, na verdade. Lutando pra ainda manter esse resto de serenidade. E é por tentar manter essa paz que preciso não ser mais forte por outrem, seja quem for - reunirei essas forças por mim mesma a partir de agora.

Preciso, enfim, me firmar nessa decisão - mais do que amor-próprio, se tornou também questão de sobrevivência (ou talvez meu coração, tão fraco agora pelos golpes da Vida e dos hormônios, possa não aguentar e sucumbir de vez - é a sensação que a fraqueza tem me dado).

Seguirei ao menos amando aos que se propõe a serem fortes comigo. Porque o Amor ainda é parte de mim e é o que ainda alimenta minha Alma.

Que D'us me ajude!

Ia'Orana!




terça-feira, 21 de novembro de 2017

Prelúdio - ou A Sedução do Sono Eterno

Era mais uma sexta-feira comum. Apenas mais uma sexta-feira. 
A mesma rotina. Os mesmos lugares. As mesmas pessoas. 
Talvez com uma ou outra variável. 


Ela, angustiada, só queria parar de pensar naquele mar de lembranças em que parecia estar se afogando. "Talvez se eu tomar 'um pouco mais' desse remédio pra ansiedade... Talvez eu apenas respire..."

Ela sabia o quanto era aquele "um pouco mais". Mentia pra si mesma pra talvez exumar-se da culpa do que estaria tentando fazer. Ou para deixar de ser ridiculamente dramática, já que, provavelmente, nada daquilo faria esse efeito todo. "E nem aquele babaca merece isso"

Jogou para o lado os longos cabelos. Jogou a mochila nas costas. Foi pra escola. 

Do outro lado da cidade ele também não parava de pensar. Mas resolveu tentar pensar em outras coisas. E resolveu visitar cenários e sensações novas. 
Antes ele temia chegar ao o seu limite, agora ele parecia que não havia mais limites a chegar. 
E sempre que voltava o pensamento, o limite era empurrado pra um pouquinho mais distante. 
E atropelou-se num efeito dominó de insensatezes. 
As sensações precisavam ficar cada vez mais intensas pra que pudesse surtir efeito, 
o efeito, 
aquele efeito, 
o tal efeito de esquecer o próprio vazio.
Ou de parar de querer lembrar toda hora. 

Na escola, tudo foi ficando cada vez mais distante, 
cada vez mais distante... 
Percebeu-se apenas fechando os olhos e caindo. As vozes em volta pareciam lhe chamar, mas não pareciam lhe afetar. 
Sentiu-se carregada. Talvez por algum professor. Ela não conseguia enxergar lá muito bem... 

E acordou com o "ping" do aparelho de monitoramento cardíaco no quarto da UTI. Um tubo que lhe subia pelo nariz lhe incomodava, mas estava grogue demais pra poder tentar tirar aquilo que, em sua alucinação, afirmava ser um cigarro. Ninguém achou engraçado. Talvez porque toda a família teria deixado de lado até mesmo suas mais arraigadas diferenças para se perguntarem, todos quase em uníssono, com as mãos na cabeça: 

"POR QUÊ?" 

Nem ela sabia também responder. 


Em meio às luzes da cidade boêmia, tropeçando entre garrafas de long neck abandonadas no meio-fio, ele mesmo também parecia não saber muito bem o que estava fazendo, mas todos percebiam o desejo óbvio de estar mais perto da morte. 

A questão era que mais uma vez ele metia os pés pelas mãos: desejando ser amado, passava dos limites, acabava desprezado. Mas estava entorpecido demais pra saber disso. Apenas sentia. Resolveu apegar-se na pouca companhia que lhe restou, mesmo que ao término do fim-de-semana tenha finalmente percebido que até com esses ele tinha agido errado.  

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Acordei no sábado extremamente cansada. Uma angústia me abatia desde a noite anterior, fui dormir em posição fetal e com os olhos encharcados - ainda que eu não soubesse dizer que eu estivesse chorando propriamente, pois as lágrimas só escorriam à revelia da minha vontade ou pensamento. Talvez movida por essa intensidade, tinha tido um sonho extremamente curioso: você estava lá, e tirava do varal uma peça de roupa (que pelo tecido eu pensei que era uma camiseta minha, mas depois percebi que era uma saia com o mesmo tecido em azul celeste) e me entregava. Tinha tempo que eu não tinha sonhos tão reais, e fazia tempo que nem tínhamos contato... Além do tal raio de camiseta que, no sonho, era uma saia. "Bobagem eu me preocupar com isso...", e embalei numa faxina geral pra na verdade organizar meus pensamentos. 

O que não adiantou em nada pois, no fim da manhã, veio a notícia do hospital. Ela tava bem. O pai que parecia destroçado. Pensei que sentiria certa satisfação ao percebê-lo assim, mas diante das circunstâncias, nem me passou pela cabeça. 

Na verdade, eu só tava encasquetada ainda por que aquela imensidão de angústia ainda não tinha ido embora, já que a boa recuperação da internada já era evidente, além dos encaminhamentos médicos. Inclusive seu arrependimento aparente. 

Mas não era mais ela a preocupação agora... Ela eu já bem conhecia. No momento, a menina estava segura. 

ENTÃO ERA O QUÊ? 

Na manhã de segunda, depois recuperar um pouco do choque, decidi ir à praia pra poder respirar um pouco. Fui buscar o D'us que eu teria visto em sonho alguns anos antes. Fui pedir orientação e perdão por não estar sentindo culpa pelo que eu não fiz - porque eu sei que fiz. 

Mas a caminho da praia, antes mesmo de alcançá-la, fui puxada pelas mãos pelo Destino, e minha rota mental se desviou: a notícia era a de que a Legião estava solta, e que a Morte andou trabalhando muito mais duro do que eu imaginava na mesma sexta-feira. Ainda que por meios diferentes. Mas buscando desaguar no mesmo lugar. 

Larguei então tudo pra trás e fugi para o mar. "Chegar até a praia e ver que o vento ainda está forte" foi crucial pra eu também me sentir forte naquele momento. Houve uma outra época em que esta triste canção de Renato Russo ecoava pra mim na Praia Vermelha pois eu lembrava de um jovem companheiro que ali conheci e que não resistiu ao canto sedutor do Sono Eterno. Mas apesar de todas as circunstâncias, esta canção agora ecoava num tom mais ameno dentro de mim, como se os Anjos que me carregavam até ali fizessem questão de me aliviar aqueles fardos tão pesados que vinham ao mesmo tempo. Porque eu me recordava de todos os sinais dados anteriormente por todos, mas me dei conta de que eu sabia muito menos sobre o que fazer do que eu pensava. 

E talvez por ignorância, arrogância ou orgulho 
eu quase perdi, 
de uma vez só, 
2 das pessoas que eu mais amo. 

Bem, agora eu ainda continuo muito sem saber o que fazer. Talvez nem saiba ainda nem como lidar. Mas ao menos vou tentar atropelar menos as coisas - eu sei, a gente é "doente", não consegue "não atropelar"... Mas enquanto eu tento isso, eu só peço (ou imploro): POR FAVOR, AGUENTEM SÓ MAIS UM POUQUINHO!! Não só em meu nome, mas em nome de todos aqueles que nunca os esqueceriam ao sentir a melancólica sensação de ser tocado pelo vento à beira-mar. Eu já estive onde vocês se encontram, e foi por um pedido desses que eu ainda me encontro aqui. Prometo que vai valer a pena.

Vamos ao menos tentar?


"Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu..."



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Epílogo - ou A Arte de Ser Vulnerável

Às vezes, temos que admitir que não podemos vencer todas as batalhas.

E que há batalhas das quais nunca sai nenhum vencedor.

Quantas são as relações em que brincamos de cabo-de-guerra? E por que continuamos brincando se sabemos que só sairemos com o joelho ralado?

Assim é fácil perceber quando decidir por se afastar também pode ser sinal de Amor. Por ambas as partes.

Por aquela pessoa que amamos e por nós mesmos.

Pra manter o que houve de mais sadio na memória e diluir mágoas.

Se afastar é a solução mais dorida pr'aquele mal que também dói. É ter Amor o suficiente pra suportar perceber que as duas partes ficam melhores uma sem a outra - apesar daquela sua certeza intrínseca de que você sim, seria capaz de fazer "dar certo".

E todos nós realmente somos capazes de um monte de coisas, não me levem a mal, mas coragem mesmo é ser capaz de dizer "eu to desistindo" diante de algo ou alguém, pois é permitir-se ser vulnerável.

Eis a grande coragem do Amor: SER VULNERÁVEL! Talvez seja por isso que o Amor nunca tenha sido pra mim; talvez meu destino seja mesmo o de um caminho solitário, talvez não tenha sido em vão que a Vida já tenha me acostumado a me deixar tantas vezes sozinha: eu não sei ser vulnerável. Não sei nem direito o que isso significa, porque tenho um orgulho do tamanho de um elefante - apesar da auto-estima de taturana - e talvez eu cobre de mim mesma uma postura bem mais rígida. Talvez eu estivesse apenas cansada de apanhar da Vida; eu tava pronta pra bater quando você chegou. E aí eu apanhei ainda mais...

Mas é justamente para secar essas e outras mágoas que decidi que não serei mais forte. Ou me esforçarei pra não ser mais assim tão forte o tempo todo. Porque o peso dessa armadura cansa demais e eu já não tenho mais forças pra seguir adiante. Aliás, já não tenho forças pra encarar as pessoas que mais me afetam. Estou também sem forças pra segurar o tamanho de certos abalos. Então eu me desvio, e procuro caminhar passos mais seguros por entre os trajetos que você não tem cumprido. Não pretendo mais encarar de peito aberto se o meu coração está visivelmente sangrando: logo eu, que nunca abaixei a cabeça pra ninguém, aceito agora o fato de que será mais saudável pra mim abaixar a cabeça ao te ver passar daqui pra frente. E, acima de tudo, evitar te ver passar. Evitar estar na sua presença. De respirar o mesmo ar.

Dessa vez não por orgulho, ou vingança, ou qualquer tipo de hostilidade.

Mas simplesmente por assumir pra mim mesma - e pra poder talvez, um dia, assumir ao mundo - que a dor é muito maior do que eu.

E que eu não estou conseguindo suportar.

Talvez eu nunca tenha sido tão vulnerável na vida quanto estou me permitindo ser agora.

(Se é que eu sei direito o que isso significa...)

Ia'Orana!

sábado, 30 de setembro de 2017

Nem tudo o que você quer é o que você merece

Pois é, estou de volta.

Na verdade eu tinha deixado esse blog inativo para me dedicar ao outro, no qual me dedicaria a textos mais poéticos, longe da questão de saúde/adoecimento mental. Talvez porque, ao adquirir estabilidade e segurança, depois de tantos meses sem medicação, eu tive a ilusão de que eu automaticamente teria deixado de ser doente. Ledo engano.

O esforço em me manter estável prosseguiu, mas com certo alívio por não me sentir mais embotada pela medicação. Vejam bem: a medicação é importante, me ajudou muito em momentos mais difíceis de crise, mas o sonho de toda pessoa com transtorno mental é ver-se livre dessas amarras, e talvez eu tenha perdido a mão nisso. A diferença é que agora percebi que mentir pra mim mesma e dizer que não sou doente só me faz adoecer mais. Tapar o sol com a peneira é apenas criar um novo caminho para chegar novamente a isso e se tem coisa que não quero é voltar a esse lugar em que tudo se resume a encontrar a dosagem certa pra me encaixar.

Então vou usar minha criatividade pra tentar construir um destino diferente.

O que me trouxe a essa conclusão foi a observação de minhas relações - não só por mim, mas também por perceber que minhas relações mais significativas são também com pessoas com algum transtorno. Pessoas que, como eu, também são vez ou outra dominadas por impulsos auto-sabotadores, ainda que de forma diferente de mim. Pessoas que também buscam a própria felicidade, mas metem os pés pelas mãos o tempo todo desejando mais que tudo acertar, ainda que tenham que reconhecer que erram também. E às vezes feio. Em resumo: perceber o quanto é difícil lidar com pessoas assim me fez voltar a me identificar neste "seleto" grupo - que, hoje percebo também, nem é tão "seleto" assim.

Muitas vezes, me vendo como doente, eu só percebia o quanto os outros me magoavam - mas eu não magoo também? E o que me faz reagir assim, afinal? Minha ilusória eutimia me fez perceber que a Vida é via de mão-dupla, e se os padrões de comportamento continuam a se repetir, é porque a "cura", na verdade, nunca existiu. Eu só me coloquei como alguém "de fora", quando também estou "dentro".

O fato é que agora que eu achava que já tirava de letra o Transtorno Bipolar, a Vida me pôs de frente a um outro transtorno: o Transtorno de Personalidade Limítrofe, ou Borderline. Eu já o tinha ouvido falar e até já tinha cogitado também ser portadora deste transtorno, mas tudo indica que não. No entanto, este parece estar presente no DNA da família, assim como tantas outras doenças psiquiátricas, e agora me pego estudando profundamente o assunto. Principalmente pra descobrir como uma bipolar como eu pode sobreviver a uma relação com uma pessoa borderline, já tendo que fazer um esforço enorme pra sobreviver apenas à bipolaridade própria.

Fácil é quando a gente pode simplesmente se afastar, "cada um no seu quadrado", gritar um "FODA-SE!!" bem alto e seguir a vida. Mas e quando a Vida te amarra a vínculos indestrutíveis com essas pessoas, ou quando você é responsável por alguma delas? Só me resta lembrar quem sou e de toda a minha trajetória até aqui: não foi fácil aprender a lidar com o TB, mas hoje já até dou palestras sobre o assunto. Ainda não sei tanto sobre a esquizofrenia, mas já aprendi a lidar no dia-a-dia. Assim como agora ainda não sei nada (ou quase nada) sobre o T. Borderline, mas to fazendo o meu melhor pra aprender - porque quero que essas pessoas que amo consigam também alcançar a paz de espírito que um dia eu conquistei (e que ainda luto pra manter aqui comigo).

To começando com o básico: conversando com essas pessoas a quem sou vinculada, tentando observar de forma racional o que sentem e o que as motiva. Tentando entender a diferença entre um Transtorno Afetivo e um Transtorno de Personalidade (logo eu, que já nasci com uma personalidade tão marcada, como já diziam aqueles que me conheceram quando criança/adolescente). Conversando com outras pessoas que também se declaram borders pra entender de certa distância afetiva. Lendo sites, depoimentos e artigos de profissionais da saúde mental (atualmente estou lendo "Corações Descontrolados", da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa). Muita coisa está, finalmente, fazendo sentido, mas sei que a jornada está apenas começando...

"Amar não é ter que ter sempre certeza...", já cantava o Jota Quest no final dos anos 1990. Talvez amar seja apenas a busca desta certeza, mesmo em meio a uma escuridão desorientadora.

Ainda na busca.
Paz.
Ia'Orana!