"...Por eu ser assim
Se eu sou muito louco
Por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz... Eu sou feliz!"
Mistura de vida, ficção, música e loucura.
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segunda-feira, 13 de julho de 2026
Praiana
E eu pensando em você.
A barca atravessa a baía
E eu pensando em você.
Mochila pesando nas costas
E eu pensando em você.
Os passos parecem seguros.
Mas eu tô pensando em você.
Casais namoram na areia,
E eu pensando em você
O vento embaralha o cabelo,
E eu pensando em você.
A chuva invadindo a cidade,
E eu pensando em você.
Saudade apertando no peito
E na cabeça, você.
Os olhos no horizonte
Procurando você.
Ausência presente no tempo,
Lembranças a me perder.
Perdida me encontro em caminhos
Que sempre me levam a você.
Destino, me encontre de novo:
Não quero mais me esconder.
terça-feira, 30 de junho de 2026
Hoje a terra avisto em você
Cheguei apressada, achando-me atrasada, mas aparentemente cedo demais – preciso de um relógio de pulso: encontrei colegas descontraídos pelo corredor, a porta da sala designada para a aula escancarada, poucas carteiras ocupadas. A minha favorita, logo na frente, estava ali, livre pra mim. Sentei, me acomodei, separei meu material e como vi que ainda teria alguns minutos, fiquei me distraindo no celular. Uma colega passou por mim pra sentar na carteira ao meu lado e perguntou, estranhando: "ih, ele ainda não chegou não?". Respondi quase em câmera lenta, sonolenta por causa da rinite que me castigava e sem tirar os olhos da tela.
Meu "não" lentificado quase virou engasgo quando percebi que, da luz que entrava pela porta aberta, uma silhueta surgia com passos rítmicos, exibindo uma maleta. Conforme ele foi adentrando a sala, a aura solar que vinha do exterior foi revelando seu rosto: era ele, que olhava diretamente pra mim e apresentava um leve sorriso, passando um pouco de confiança e alegria em me ver (afinal, entre feriados e problemas práticos dele, foram 10 dias de hiato). Como adolescente desajeitada, só consegui desviar timidamente o olhar e sussurrar à colega que ele tinha chegado.
Logo atrás, os outros alunos também adentraram e a aula teve início. Como dessa vez eu fiz questão de estudar o texto proposto, fiquei buscando brechas para interagir, entre uma explicação e outra, mas eu não conseguia pensar em nada de tão sonolenta. Sobre o tablado, com o livro nas mãos, às vezes eu percebia seu olhar instigador por cima dos óculos visivelmente novos, como quem esperava algo. Só me restou aceitar que nada disso irá passar de lembrança em breve, já que a prova já estava marcada pra dali 10 dias e fim de disciplina. Fiquei na minha, apenas concordando com a cabeça e um sorriso quando ele falou das questões atuais do Senado.
Mas parece que isso mexeu com ele: ele voltou aos poucos a ser aquele professor mais agitado, gesticulador, tirando mil exemplos práticos da cartola. E foi numa dessas que demorei mas me surpreendi – falando sobre a lei seca, ele lembrou:
"Antigamente, era muito comum as pessoas beberem sem limites e depois pegarem no volante. Esse é um exemplo de que leis podem mudar os costumes – por exemplo, se eu saio e vou beber, deixo que ela (e aponta pra mim) dirija; os casais hoje em dia combinam entre si...", então se apressou ao tentar se recompor: "assim como amigos tbm quando saem, combinam de pedir um carro por aplicativo...".
E acho que isso me encorajou. Na verdade, mais adiante eu realmente fiquei meio confusa com a concepção de uma ideia e ele, encostado num canto do quadro ao expô-la, ficou observando minha cara de "meme da Nazaré confusa" olhando pro outro canto. Chamou o meu nome e ao percebê-lo me observar, muito timidamente, a dúvida foi saindo quase distraída e algo parecia tê-lo acendido, pois desandou a explicar de todas as formas possíveis pra que não ficassem dúvidas. Ao fim, se posicionou à minha frente, ainda sobre o tablado, óculos novos sobre o nariz marcante, e um olhar de quem, se pudesse, me chamaria pra tomar um chopp pra gente debater todas essas coisas. Sorri agradecida porque eu tinha entendido o tal conceito.
E a aula chegou ao fim. Enquanto ele fazia a chamada, eu ia guardando minhas coisas ainda sonolenta e quando me dei conta, boa parte da turma já tinha saído e a chamada concluída. Uns outros dois alunos ainda o abordaram, um em cada lado de sua mesa, então fui saindo de fininho (porque da última vez que tentei me aproximar após a aula, ele nem deu conta de responder meu voto de "bom feriado" – ainda que, quando eu já estava distraída quase na porta da sala, tenha ouvido ele gritar em resposta, mas nunca saberei se foi realmente pra mim). Fui então passando discretamente e o percebi me observando sair. Sussurrei, meio sem graça, um "tchau" baixinho pra não incomodar, e ele acenou com um sorriso e fez questão de cumprimentar mandando "um abraço!". Sorri dando uma piscadinha inconsciente (o que faço com todo mundo) e tive a impressão de ter sido recíproca. Corri pro bandejão.
O dia passou, andei pra cá e pra lá, falei com gente, e decidi que era hora de voltar. Caminhei até a estação das barcas e lá dentro, um músico independente tocava "Knocking on heaven's door", o que me deu, por si só, um ânimo diante da exaustão. Até que lembrei do ocorrido com o "teacher crush" na aula da manhã. Minha mente foi então desenrolando todo o novelo dos acontecimentos, não só do dia mas dos últimos meses e, mais uma vez, olhando o mar pela brecha da vidraça, me perguntei: "será?..."
Automaticamente o músico começou a cantar:
"Estranho seria se eu não me apaixonasse por você... O sal doce para os novos lábios..."
Quando as portas para a plataforma de embarque das barcas se abriram, ainda atordoada, busquei manter meus passos firmes por entre os transeuntes que seguiam a mesma direção. Ainda deu pra ouvir o som do músico ficando cada vez mais distante, lá atrás:
"(...) Colombo procurou as Índias, mas a Terra avisto em você.
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário (...)"
(30/06/2025)
domingo, 7 de junho de 2026
"Odalisca Androide" (Fausto Fawcett)
"Eu estou sempre aqui, olhando pela janela.
Não vejo arranhões no céu nem discos voadores.
Os céus estão explorados mas vazios.
Existe um biombo de ossos perto daqui.
Eu acho que estou meio sangrando.
Eu já sei, não precisa me dizer.
Eu sou um fragmento gótico.
Eu sou um castelo projetado.
Eu sou um slide no meio do deserto.
Eu sempre quis ser isso mesmo:
Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores,
e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica.
Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos
com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua,
gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação
de alguma coisa planetária.
Quando eu beijo eu improviso mundos molhados.
Aciono gametas guardados.
Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica.
Uma notícia de saturno esquecida,
uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado,
uma odalisca andróide que tinha uma grande dor,
que improvisou com restos de cinema e com seu amor,
um disco voador…"
quarta-feira, 3 de junho de 2026
O Vento que te trouxe
Acordei já era fim de tarde.
Pela janela aberta que dá pro quintal, entrava o resto do Sol que se punha e uma música que vinha de longe, como se viesse através do vento.
Era Engenheiros do Hawaii. Reconheci a melodia e senti conforto como quem encontra um bilhete esperado numa garrafa em alto-mar, ou como quando um cheiro muito conhecido invade os pulmões, mas não lembrava e nem entendia a letra cantada. Quis buscar a letra na internet, mas ela cessou antes que eu pudesse me conectar, justamente como surgiu: do nada.
Ainda lembrei de tentar buscá-la uma ou duas vezes até o fim do dia, inclusive no banho. Mas a melodia já tinha se perdido. Deixei pra lá. Não devia mesmo ser um sinal pra mim como eu pensava.
O resto da noite se passou e eu já me distraía antes de pegar no sono rolando pela rede social quando passei por alguém que fez um trocadilho com o nome dessa mesma banda. Era mesmo um sinal? Resolvi arriscar e joguei "letras Engenheiros do Hawaii" no Google. Logo apareceu uma lista e minha intuição pediu pra clicar na primeira que me apareceu (porque eu sou péssima com títulos de música). Foi em cheio:
3 X 4
"Diga a verdade
Ao menos uma vez na vida
Você se apaixonou
Pelos meus erros
Não fique pela metade
Vá em frente, minha amiga
Destrua a razão
Deste beco sem saída
Diga a verdade
Ponha o dedo na ferida
Você se apaixonou
Pelos meus erros
E eu perdi as chaves
Mas que cabeça a minha
Agora vai ter que ser
Para toda a vida
Somos o que há de melhor
Somos o que dá pra fazer
O que não dá pra evitar
E não se pode escolher
Se eu tivesse a força
Que você pensa que eu tenho
Eu gravaria no metal da minha pele
O teu desenho
Feitos um pro outro
Feitos pra durar
Uma luz que não produz
Sombra
O que não dá pra evitar
E não se pode escolher
Somos o que há de melhor
Somos o que dá pra fazer
O que não dá pra evitar
E não se pode escolher"
Te vejo amanhã? Não sei. Deixei que o Destino faça a sua parte, do jeito que tem que ser.
Boa noite!
Axé-Amen-Shalom!
segunda-feira, 1 de junho de 2026
A Travessia
Eu não consigo te prometer uma estrada sem curvas, porque a vida nunca foi assim para mim, mas quando penso em futuro, penso em construir alguma coisa que tenha paz, não uma paixão que explode e desaparece.
Eu gostaria que você soubesse que nem todo amor precisa ser uma batalha. Nem toda história precisa ser marcada por ausências, desencontros ou dúvidas constantes. Existe uma versão de nós onde os dias são simples, onde eu te procuro porque quero te contar como foi meu dia. Onde você é a primeira pessoa para quem eu mando uma foto de algo bonito que encontrei pelo caminho. Quando penso em você no futuro, não imagino apenas momentos extraordinários. Imagino rotina. Imagino domingos preguiçosos. Imagino viagens planejadas em cima da hora. Imagino discussões bobas sobre qual filme assistir, porque é isso que eu imagino viver com você.
(@Wanderlust)
Te vejo dia 12!
"Quando você foi embora
Fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha
E nem é meu este lugar
Estou só e não resisto
Muito tenho pra falar
Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar?
Sonho feito de brisa
Vento, vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar
Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte
Tenho muito o que viver
Vou querer (te) amar de novo
E se não der, não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço
Com meu braço o meu viver
Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar?
Sonho feito de brisa
Vento, vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar..."
sábado, 16 de maio de 2026
Nihayet seni buldum!*
EU NÃO ACREDITO!!
Meus deuses, como eu estive errada!! Negando a mim mesma as verdades que minh'alma gritava por medo ou frustração...
Aquilo que veio antes foi "fase de teste" – uma forma de ampliar meu chakra cardíaco o suficiente para poder caber você.
Aquele que te precedia com um abraço-casa nunca foi meu lar. Me forjou através do amor que não soube – ou não pôde – me entregar.
Tive que aprender a curar minhas próprias feridas pra estar pronta, estar forte, já que o que viria em seguida seria tão grandioso que eu sequer poderia imaginar.
Reencontrar você e nossos "filhos" foi uma tarefa árdua, mas não foi em vão: enxergo hoje cada pedaço do que vivemos e mais lembranças chegam me desconstruindo certezas vãs.
O que será de nós daqui pra frente, não sei, pois só depende de nós. Mas voltar a experimentar esse amor finalmente me trouxe o sentido e o propósito que tanto busquei.
Então seguirei em frente, sendo o melhor que eu posso ser. Não posso controlar o destino do mundo, mas hoje sei que posso controlar o meu. E é o seu amor – entregue junto com tâmaras pelas ruas de Istambul há mais de 100 anos, ou hoje, através do seu olhar zeloso – que me fará ir mais longe depois de uma vida inteira desacreditando de mim.
Eu só queria que você também pudesse sentir essa presença divina que sinto em mim. Tenho fé de que, longe ou perto, um dia sentirá (se ainda não se permitiu).
Se um dia "foi um vento que passou, que te trouxe e te levou" (como cantava Verônica Sabino), foi esse mesmo vento que nos trouxe a todos de volta à costa do Gragoatá.
E um vento, você bem sabe, "não dá pra segurar".
"No alto da montanha
Ou em um cavalo em verde vale
E tendo o poder de levitar
É como em um comercial de cigarros
Que a verdade se esquece como os tragos
Sonho difícil de acordar
Quando seus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá pra segurar
Não dá prá segurar
Não dá prá segurar
Não dá pra segurar,
Desculpe, meu amigo
Mas não dá pra segurar
Vou dar então um passeio
Pelas praias da Bahia
Onde a Lua se parece
Com a bandeira da Turquia
É o planeta inteiro que respira
Sinais de vida em cada esquina
Tanta gente que se anima
E quando seus amigos te surpreendem
Deixando a vida de repente
E não se quer acreditar
Mas essa vida é passageira
Chorar eu sei que é besteira
Mas, meu amigo, não dá pra segurar
Não dá pra segurar
Não dá pra segurar
Não dá pra segurar
Desculpe, meu amigo
Mas não dá pra segurar..."
(Ira!)
Yakında görüşürüz! Τα λέμε σύντομα...
*(Ler "Neredesin?" - novembro/2024)
sábado, 9 de maio de 2026
"Será que sou tão especial assim?..."
Dia desses, estava eu com uma amiga conversando sobre essas "coincidências que não são coincidências" (mas confirmações da espiritualidade) e ela (bem mais nova que eu) se fez essa pergunta que eu já me fiz muito também.
A verdade, é que todos nós somos especiais. Podemos ser ilustríssimos desconhecidos do grande público, não termos muitas posses, mas somos indubitavelmente protagonistas da nossa vida, querendo ou não, e cada um de nós tem um secto de encarnados e desencarnados (muitas vezes, mais desencarnados) que nos ama muito – mesmo que não entendamos muito o porquê.
Eu tive uma trajetória de vida que, por muitos, é considerada muito difícil. Eu nunca achei confortável o lugar de vítima, então fiz dos limões um consistente mousse: bati as claras incansavelmente até construir a base desta minha sabedoria meio torta, mas que me mantém de pé e, às vezes, tbm ajuda outras pessoas. Porém, sempre consciente que, sozinha, eu certamente não iria muito longe (mesmo que a grande maioria não consiga enxergar o bando de companhias que tenho, já que estão em "outro plano").
Dito isso, neste momento, sinto apenas a necessidade de publicizar minha gratidão – pois neste momento, observo os lugares de onde vim, por onde passei, onde cheguei e os caminhos que têm sido abertos pra eu seguir essa viagem louca chamada VIDA, e é de admirar!
"O que tem de ser tem muita força", e sinto hoje que não mais dou murros em ponta de faca: as sementes que plantei estão brotando e está tudo se encaixando, simplesmente pq finalmente as plantei em solo fértil (onde meu coração mandou, NINGUÉM MAIS).
Daqui da onde estou, só posso deixar uma mensagem que eu gostaria muito que a Dannie de 15 anos pudesse ter recebido:
NUNCA DESISTA DE VOCÊ. NUNCA DESISTA DOS SEUS SONHOS – AQUELES QUE NÃO OUSARAM TENTARÃO TE SEDUZIR AO PRÓPRIO MURO DE LAMENTAÇÕES: NÃO PERMITA.
Levanta e anda, e sonha! Não deixem de sonhar nunca. Mas também não parem.
GRATIDÃO!! ✨
Amen-Axé-Shalom!
terça-feira, 5 de maio de 2026
Diário de Campo I
Parece que hoje presenciamos, através deste texto, um marco.
Aquela moça um tanto jocosa, assumidamente louca e excepcionalmente romântica deu lugar a uma mulher mas emocionalmente previsível, centrada e bem mais reflexiva (não que não fosse antes).
Dito isto, podemos prosseguir daqui...
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É, me parece que a vida de pesquisadora-dicente é mesmo bastante solitária.
A Antropologia entrou em minha vida no momento exato em que deveria: já aos 44 anos, tendo arriscado diversas carreiras, diversos estilos de vida, e mais um sem número de relacionamentos que me tiraram do meu centro. Todos os altos e baixos me ensinaram que eu não quero viver em rodas gigantes não. Acho que nunca quis. Mas, de alguma forma, a Vida parece que me quis experimentando tudo pra poder, hoje, sintetizar tudo isso na carreira que essa própria Vida me deu.
Afinal, como estudar e produzir conhecimento sobre humanidades (antropo) sem realmente tê-las experimentado?
Não estou fazendo terapia, mas às vezes sinto falta. Apesar de agora, já sem mais remédio nenhum, eu estar conseguindo dar conta de me entender - não era crise bipolar, era crise sensorial esse tempo todo. Isso explica porque meu "transtorno bipolar" não teve um "marco zero" e eu não conseguia encontrar gatilhos, nem mesmo com quase 20 anos de acompanhamento psico-psiquiátrico: sou assim desde que nasci. Isso sempre fez parte de mim. Mas o melhor de tudo, é que estou cada vez mais consciente dos meus "gatilhos": sons, luzes, cheiros, toques e até olhares podem afetar quase fatalmente quem tem hipersensibilidade.
Mas, enfim, viemos falar da vida de pesquisadora-discente, não é?
Enfim, desde que iniciei a graduação em Antropologia na UFF (depois de ter decidido nunca mais pôr os pés na UNIRIO e nem fazer nada que me recordasse tudo que vivi no Serviço Social), minha vida parece dar uma guinada de 180 graus a cada esquina que eu viro: resgatei sonhos antigos, conheci outras pessoas que muito se parecem comigo em minhas neurodivergências, mudei de cidade e a cada novo lugar que visito em meu "reconhecimento de campo" me dá uma sensação muito intensa e ao mesmo tempo leve de quem já esteve ali, naquele lugar, em instantes oníricos. O carrossel de déjà vus não pára - o que às vezes dá até um pouco de vertigem, mas não tira o sentimento instigado de vislumbrar o pote de ouro no fim do arco-íris.
Enfim: morando agora a poucos minutos a pé do campus (mais perto ainda do que a república anterior, na qual vivi por aproximadamente 6 meses) a sensação de viver dentro da própria universidade é inevitável: o curso é integral e, mesmo que eu tenha decidido optar apenas por disciplinas vespertinas quando montei minha grade desse semestre, a vida quis que eu fosse escolhida num processo seletivo para bolsistas de um projeto de monitoria (na verdade, um dos vários editais a que concorri desde o início do ano), e a disciplina à qual atualmente dou assistência é pela manhã. Ou seja: ao menos 2 vezes por semana chego lá, no "quintal de casa", nas primeiras horas do dia, e só saio por volta das 19:00h, se tiver sorte de pegar o bandejão não muito cheio pro jantar (o que ultimamente anda raro, graças ao funcionamento parcial por conta da greve dos funcionários). O movimento estudantil ainda quis me puxar de volta, mas engoli meu orgulho e botei a vaidade no bolso: deixa que os jovens entreguem agora todo sangue, suor e lágrimas que eu dei de mim uma década e meia atrás.
Pois é, a carga horária pode ser um pouco puxada - principalmente se sua permanência na universidade depender de auxílios e bolsas, que exigem compromisso em contrapartida. Mas não reclamo: ao menos pago as contas com as horas trabalhadas em algo que tenho gostado cada vez mais e tenho uma vida simples, mas confortável. Os textos antropológicos e relacionados são densos e o volume também é bem grande - há professores que nos exigem a leitura de um ou 2 livros inteiros em apenas uma semana (isso sem contar os textos a serem lidos das outras disciplinas) - então não só de período presencial é feita a graduação em Antropologia, mas também das horas extras de dedicação em casa. Tenho até testado aplicativos no celular para me ajudar a organizar a rotina entre leituras, trabalhos e tarefas domésticas das quais não posso abrir mão. Ainda não bati o martelo sobre qual combinação usar de fato, mas acho que, aos poucos, está ajudando sim. Também tenho lançado mão de alguns "artifícios" pra não desregular (muito) e adquirido estratégias para escapar do excesso de estímulos sensoriais e situações que podem engatilhar essas crises - e dessa vez, pela primeira vez depois de tantos anos de psiquiatria, estou conseguindo mirar no problema certo e solucioná-lo de verdade, sem mais os placebos dos remédios controlados que só me transformavam em um robô sem memória, sem vontade de viver e com sua constituição física cada vez mais deteriorada (acabando, assim, com minha autoestima, que nunca foi lá muita).
De qualquer forma, agora estou num meio em que me sinto muito confortável (diferente de outrora) pois percebo que o que penso e faço (e como penso e faço) pode chamar muito mais atênção que minha aparência.
A monitoria também tem sido uma delícia, apesar dos desafios - porém, nenhum desafio maior do que minha experiência na minha outra universidade, onde tudo parecia ser feito meio de improviso, sem a mínima orientação sobre o que e como fazer. Talvez não tivesse sido tão traumático se eu também não tivesse sido deixada sozinha pela minha orientadora na hora de fazer e apresentar o trabalho resultante dessa experiência na Semana de Integração Acadêmica... Mas voltando à ideia inicial do parágrafo, a experiência tem sido muito gratificante, mesmo ainda no primeiro mês - retomei àquele sonho antigo de lecionar, coisa que até tinha desistido... O tempo tinha passado pra mim, lembram? Quem diria que aquela mulher de 7 anos atrás, que tinha perdido bens, afetos, perspectivas e até dignidade, que tinha achado que a vida tinha acabado ali, hoje estaria aqui pra contar outra história...
E pra "fechar o pacote", por último mas não menos importante, o curso de francês que inventei de fazer nas manhãs "livres" (como se eu não tivesse textos prá ler e escrever nem tivesse que auxíliar na assistência a outros colegas e à professora como monitora...). Pelo menos é EaD, posso fazer no "conforto do meu lar" (contanto que eu não atrapalhe minhas companheiras de quarto, que são bem legais, diga-se de passagem – bem mais que da república anterior).
Enfim, tudo isso pra talvez tentar justificar minha tão longa ausência deste blog. Não foi falta do que escrever, pelo contrário: é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo!! Cansativo? Não vou mentir que não, porque é. Mas é ao mesmo tempo extremamente prazeroso - eu nunca me imaginaria tão feliz me desgastando assim em qualquer emprego CLT (igualmente digno, mas muito distante do que minh'alma sempre aspirou).
"E o coração?... Desocupado?...", é o que provavelmente a "velha-guarda" deste blog perguntaria se ainda estivesse por aqui (o que duvido muito pelo nível de "poeira virtual"). Eu te diria: não sei. Difícil dizer. Porque antes eu sempre punha o amor por alguém na frente de tudo: homens, filhos, pais... E acho que agora, pela primeira vez na minha vida, o maior amor que tenho sentido por algo que não seja eu mesma é a Antropologia e a vida acadêmica. Perdi aquele ranço que tinha ficado em mim depois de todos aqueles traumas passados... Estou reprendendo a amar. Mais e melhor - mesmo que pra isso eu ainda tenha que ir lá atrás, vez ou outra, revisitar esse mesmos traumas pra lhes dar uma nova cara, um novo significado. E não é isso que uma antropóloga faz? Buscar significados? (Transformá-los já é outra coisa que sai da alçada da profissional...)
Enfim, enfim, enfim, pela enésima vez (pra não perder o costume da piada autocrítica), há sim muitas outras coisas que eu queria explorar aqui. Mas eu já falei/escrevi tanta coisa hoje, não?
Será que lerão tudo?... Será que alguém sequer vai ler?...
Tanto melhor se não lerem: será então nosso pequeno segredo.
Bom domingo, São Domingos!
Amen-Axé-Shalom!
sábado, 4 de abril de 2026
Breve carta ao Arcano 4
Tenho me perguntado, já há algum tempo, se você também sente a leveza no ar quando nossos caminhos se cruzam. Se você também sente um raio atravessar ao menor contato ou se também tem, às vezes, a sensação de estar se afogando em sentimentos que não sabe bem como nomear.
Há uma liturgia nesses nossos encontros, um ritual cheio de símbolos e significados que não precisa de palavras para ser sagrado.
Eu te batizei sem saber que você me ressuscitaria, e te coroei Imperador em segredo, num ritual de portas trancadas em meu reino. Porque a realidade comum parecia pequena demais para a força da sua presença. Para o Mundo, somos apenas dois acadêmicos atravessando o campus; para mim, é o encontro de duas forças que eu sinto que já se conheciam desde antes da primeira aula – uma familiaridade inexplicável dentro de um ambiente em que as ciências exigem explicação. Talvez por isso mesmo eu tivesse me sentido tão à vontade.
E talvez por isso também essa minha naturalidade se perdeu: era muito mais simples com nossos papéis pré-estabelecidos e bem delineados. Eu sabia o que fazer, até onde ir e quando ficar. E de repente, quando tudo ficou mais solto, fui perdendo o controle – assim como quando entro em pane se tento entrar no mar, justamente por não ter onde me segurar. Eu ainda não sei lidar com imprevisibilidades, e minha rotina tem sido me perder – e não é por você, é em você.
Existe uma nobreza no seu silêncio que espelha a minha própria procura por respostas: "Mas por quê?... Mas por que não?... E quando foi que isso mudou?..." – e sigo nesse looping infinito de controvérsias comigo mesma.
Não pretendo mudar o curso desse rio. Só desejo não me afogar nele em minhas noites insones. Então escrevo apenas para tentar me livrar do sentimento contra o qual sempre lutei, contra o desejo de te fazer saber que existe alguém que te lê além da formação e das convenções: te lê as entrelinhas de humanidade. Alguém que reconhece a sua soberania e que, de longe, tenta sustentar o olhar e falha miseravelmente – simplesmente porque se tornou espelho demais.
Alguém que admira e se afeiçoa muito mais que gostaria, mas que te respeita e que te lê enquanto o mundo passa distraído.
Ainda tenho muito a dizer, só não sei ainda COMO.
Da sua,
Imperatriz (Arcano 3).
Chag Pessach Sameach!
sábado, 10 de janeiro de 2026
Meu querer (poema)
Quero você
E esse querer vem muito antes d'eu querer.
Me vi perdida em mim mesma
Entre transbordar pelos olhos
E me vendar.
Mas o céu, a lua, o mar,
O sol que nasce trazendo calor
Me fazem lembrar toda vez que penso em esquecer
Que te quero.
E que sempre quis.
É um querer que criou raiz
No improvável solo do meu ser.
Te querer virou tormento e paz.
Júbilo e lamento.
Alimentar ou deixar morrendo
De inanição?
E o que fazer com esse choque que percorre o corpo?
Com os sobressaltos que se fazem ao peito?
Esses sonhos que se fazem em leito
Me deixando sem dormir?
Sentes o mesmo ou é só impressão
De que pensas em nós no escuro e na solidão
Do quarto à noite lembrando a colisão
Que nos une e repele mesmo sem intenção?
Eu nunca quis querer
E vejo em teu olhar: também não.
Mas a paixão, essa tirana
Invadiu nosso coração
À revelia.
O que fazer?
Não sei.
Só quis dizer pois sinto derreter
Com o calor que me provoca às entranhas.
Perdoe minha sanha de tentar fazer poema:
Não é deboche, aposte.
Não é teorema, é canção.
Se ainda puder rir, acene.
E eu poderei abrir os braços pra que você se assente
De vez em meu peito,
Sem receio ou razão.
(Dannie Machado – Niterói, 10/01/2026.)
domingo, 30 de novembro de 2025
Quando você entrou em mim como um Sol no meu quarto
"Mais uma noite quente de verão. Deitado, olhando pro teto e com um dos braços acima da cabeça, tentei dormir.
Mal fechei os olhos e um cheiro de tangerina invadiu o quarto, junto com um vento que eu não sabia de onde vinha. Abri os olhos e era ela: vinha em minha direção, sua longa saia esvoaçante, os cabelos revoltos pelo vento e trazendo um sol vivo no olhar. Vestia a mesma roupa que exibia sua cintura faceira e me deixou sem reação no último encontro, mas dessa vez, as peças eram alvas.Assustado, pisquei os olhos e os esfreguei com a mão que eu havia pousado sobre a barriga. Ela se aproximava pé ante pé, como quem brinca na corda bamba. Olhei pro lado pra me certificar de que quem dormia ali não estivesse vendo o mesmo que eu: não havia mais ninguém.
Ela então chegou perto da cama e, com a leveza de uma entidade, se debruçou sobre mim. Olhou dentro dos meus olhos e me farejou como uma onça no cio. Depois foi descendo ao meu peito e me esfregou sua cabeleira como uma gata pedindo afago. Eu não tinha reação.
Queria mandá-la embora, dizer que aquilo era uma loucura: fazer o certo a fazer. Mas ao mesmo tempo, eu só queria mergulhar mais fundo.
Ela então subiu de novo e me encarou face a face. Seu cordão de aço com pingente misterioso escapou de dentro de seu decote e balançava, tocando meu queixo. Respirei do hálito que sua boca exalava como se sugasse minha própria vida.
Uma de suas mãos apoiada acima do meu ombro agarrou meus cabelos e ela desfilava sobre mim aquele aroma delicado. Tudo era irresistível demais pra resistir.
– Então, é você a Serpente do meu Paraíso?... – sussurrei.
– Todo Jardim do Éden tem uma Serpente e um Fruto da Árvore do Conhecimento... Você escolhe o que sou pra você..." – e entre os cabelos me fitou com um semi-sorriso de quem queria testar minha sanidade.
Sanidade esta que perdi nesse momento: a mão que eu tinha pousado sobre a minha cabeça agora agarrava seus cabelos rebeldes pela nuca, e tentava pressionar seus lábios rubros contra os meus. Ela resistia: mostrava os dentes, oferecia a orelha, me olhava como quem estava no comando.
Ainda sobre mim, se desvencilhou e ergueu mais o tronco: pegou minha mão e juntos abrimos vagarosamente o zíper de seu corpete, enquanto ela dizia:
– Então... Parece que você fez sua escolha...
Com a voz entrecortada pela respiração ofegante, suspirei e olhei pro alto:
– Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada... – e engoli seco.
Sorrindo como quem vence uma batalha pela minha alma, ela termina de abrir o zíper e orienta minhas mãos pelo seu corpo. Minhas mãos finalmente exploram aquela cintura que tirou meu sono.
Ela continua dançando sobre mim, volta a se debruçar. Me beija e seus gemidos em meu ouvido soam como canto de sereia a me levar pro fundo das águas...
Minha língua então explora as curvas de seu colo: sua respiração intensifica, os suspiros agudizam, seus olhos reviram e seu corpo se abre e se entrega pra mim como se o próprio fato de me trazer de volta à vida a levasse ao êxtase (onde chegamos juntos, num clarão de luz).
Então acordei. Molhado de fluídos que não sei identificar ao certo e buscando sua presença ainda tão presente em meu quarto. Eu queria ficar ainda deitado pra retomar o fôlego, mas olhando aquele outro corpo que dormia ao lado e minha própria situação, achei melhor acelerar uma ducha e vestir roupas limpas. Me senti um adolescente tentando esconder as peças sujas no fundo do cesto, esperando que ninguém reparasse ou comentasse. Não tenho mais idade pra essas coisas...
Voltei a deitar, mas o sono não vinha: queria revisitar aquele cenário, voltar a sentir os cheiros e a pele. E se eu mandasse uma mensagem?...
Longe demais. Deixa pra lá. Uma pena..."
terça-feira, 11 de novembro de 2025
O Coração Selvagem
Havia um hiato de calendários e silêncios que me fez supor a ausência como regra. Mas aquela segunda-feira ignorou meus pressupostos.
Não foi um desses avistamentos furtivos pelos corredores. Dessa vez você parou. O sorriso, com aquela modulação que desarma a pressa, transformou o meu grupo à sua órbita. Enquanto as palavras de Durkheim costumavam me tirar o sono, ali, sob a luz do sol de Niterói, no ângulo exato que transformava sua íris em vitral, o cansaço virou observação participante.
Alguém mencionou a complexidade de uma colega e você, em sua síntese elegante, foi interrompido por um ato falho coletivo — ou melhor, por uma saudade que escapou da boca de outra pessoa mas que, pro meu espanto, trazia o meu timbre. A "declaração de amor acadêmica" serviu de escudo para minha própria mudez. O riso que se seguiu, de timidez mineira, me foi o único "fato social" relevante do dia, me relaxando da tensão de uma adolescente que flagra seu próprio diário violado.
Você se despediu, prometendo-me um de seus dias da semana. Eu, que já decorara o cronograma dos ventos, apenas observei teu recuo, segurando a pasta como quem carrega o tempo de quem quer ficar. No fim, ficamos nós, a "turma do outro bairro" – eles brincando sobre "crushes intelectuais" e eu calando o sobre o essencial. Sobrou Belchior na cabeça, o coração selvagem batendo forte no peito e a certeza de que certas presenças não precisam de matrícula para ocupar todo o espaço.
Será que um dia descobrirá os beijos que escondi nas dobras do blusão?...
Axé-Shalom-Amen!
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
Os Lírios Universitários ("É Primavera!")
Habituei-me à ausência como quem se adapta a um novo campo de estudo. Os encontros semanais viraram dados arquivados sob a pilha de tarefas domésticas e acadêmicas. Entre a mudança de casa e as novas leituras, a ideia de te ver virou uma variável descartada pela lógica da vida adulta.
Mas o destino é um coreógrafo debochado. Entrando no saguão após descer as escadas em ritmo de Raul Seixas, a "maluca beleza" quase colide com o seu objeto de estudo favorito: você, a pasta indefectível e um sorriso de quem também não esperava a trombada. O breve diálogo – um "tudo bem?" apressado – foi o prelúdio de uma série de sincronias inexplicáveis: o pé da escada virou nosso território de encontros eventuais.
Em determinado dia, graças ao meu insistente ritual com o batom vermelho e os cabelos após o almoço – sob o olhar impaciente dos colegas – o tempo se ajustou para que nos cruzássemos.
Você vinha em meio a um grupo, desvencilhando-se a passos rápidos, fazendo o cabelo saltar sobre os olhos. No corredor estreito pela montanha de carteiras abandonadas, a fila indiana nos forçou à uma proximidade absoluta. O sorriso largo, o toque no ombro e o cheiro – aquela mistura de couro, tabaco e automóvel – criaram uma atmosfera que a teoria não explica. Se fosse uma carona, eu definitivamente não perguntaria o destino.
À porta da sala, ainda sob os fortes efeitos da sua presença, ouvi o coro dos amigos sobre a saudade das suas aulas e apenas me rendi: semicerrei os olhos, soltei os ombros e deixei um suspiro adolescente escapar, acompanhando o grupo com a honestidade de quem ainda guarda o cheiro do encontro na pele. Quem sabe o próximo esbarrão não rompe os muros da instituição?
Axé-Shalom!
domingo, 3 de agosto de 2025
Àqueles que virão depois de mim,
Muitas histórias ouvirão sobre mim: umas boas, outras nem tanto. Não importa. Assim como também ouvi histórias sobre aqueles que me precederam e que ao longo do tempo percebi que não eram bem da forma que me contaram. Não venho por meio desta carta explicar ou justificar as minhas histórias, mas contar das buscas e descobertas que tive ao longo dos últimos meses.
Nesses tempos, caminhei por labirintos desafiadores – não porque foram difíceis, mas justamente porque eu já estava habituada. Aprendi a reler cada linha escrita há tantos anos por meus ancestrais, mas que ainda me desenham por dentro e por fora. Revisitar minhas próprias rotas desde a mais tenra infância, tempos de escolinha, de comida de vó. Admirar espelhos impressos ainda em preto e branco e até mesmo aqueles espelhos que foram quebrados nos rumos que a humanidade tomou. Reconhecer em mim olhos, cabelos, lábios, braços e mãos que hoje carregam marcas de aulas de piano e também de muito trabalho duro. Que hoje tentam reproduzir as iguarias que provei em família e até mesmo aquelas que sequer provei e quase se perderam na linhagem. O beiju e o cuscuz do sertão de Sergipe, que minha avó aprendeu de sua mãe indígena. A tradição espanhola do “chuchilo” e da páprica caseira que minha bisavó manteve, mesmo já tão abrasileirada que cultuava Pretos Velhos e benzia vizinhos que a buscavam com problemas do corpo e da mente.
Busquei nomes, lugares, fotos e as histórias escondidas por trás de cada uma dessas coisas. Revi uma foto rara da minha outra bisavó preta, lindíssima e imponente, com as mãos nas cadeiras e me reconheci naquele gesto. Estive também mais íntima da cultura indígena (o que me lembrou muito da minha experiência há alguns anos de uma noite na Aldeia Maracanã ao redor da fogueira, absorvendo as tradições e aprendendo o que é resistência na prática), o que me instigou a tentar reconectar com a etnia de minha bisavó nordestina e me deparar com a longa história de resistência tupinambá liderada pelo chefe Surubi do povo de Itaporanga D'Ajuda.
Entendi que muito antes de entender a importância da aprendizagem através da oralidade, eu já vivia isso dentro do meu quintal, sentada no canto da porta de dona Amélia enquanto ela me ensinava artesanatos e o cultivo de plantas medicinais, coisas que às vezes invento de reproduzir. E é de uma forma talvez mais afetiva do que exatamente instintiva que passei e passo a vocês, meus filhos: o respeito pelas plantas, pelos animais, até pelas pedras. Valores da terra que são maiores que os do dinheiro. E também aprendi com vocês, quando me chamavam atenção a algo que eu já estava habituada demais pra me dar conta. Hoje vocês cresceram e sou eu que “ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome” – escrevi então pra que vocês se recordem de não se deixar habituar.
Vocês foram meus primeiros alunos da vida, me inspiraram a atuar na educação de várias outras maneiras, e hoje vim parar aqui: reaprendendo a aprender para poder transformar o mundo que desejo para vocês e os que virão após.
Então sigo em frente: levanto ao nascer do sol, beijo a imagem de Nossa Senhora da Conceição segurando as guias que dona “Concheta” me ensinou mesmo em sua ausência, atravesso a cidade que cansei de atravessar (e que também foi atravessada pelos que vieram antes de mim), e me reúno a outras vivências, saberes e formas de experimentar o mundo, na esperança de continuar semeando um mundo melhor e mais justo para todos os povos e indivíduos.
E a vocês, filhos meus, de sangue e de afeto, só desejo que guardem convosco a mensagem: não deixem de ouvir o vento que traz a voz dos antepassados, nem de semear aquilo que queremos que os que virão depois de nós venham a colher.
Rio de Janeiro, 10 de julho de 2025.
(Trabalho final da disciplina "Antropologia & Educação I".)
sexta-feira, 2 de maio de 2025
No terceiro dia, as portas se abriram
Há algo que pulsa por baixo da terra e do tempo.
Um fio invisível que nos conecta àquilo que fomos, e àquilo que ainda seremos.
Nessa madrugada, não acendi velas, não recitei salmos antigos.
Mas cantei com as vozes do passado.
Em ladino.
Em lágrimas.
Em silêncio.
Deitei ao lado da imagem de minha bisavó - ou de Nossa Senhora, ou de ambas.
Quem pode dizer onde termina uma e começa a outra?
A chamei como quem chama por casa.
Chamei meus guias, minhas entidades, minhas raízes que respiram fundo sob o solo da memória.
E pedi luz.
Não para ver o mundo…
Mas para ver o caminho.
No terceiro dia, a resposta chegou.
Simples. Sutil. Como se sempre estivesse ali.
Como se só esperasse que eu abrisse o peito, e as portas da alma.
Ali estavam os nomes esquecidos.
Os ancestrais perdidos.
As chaves de uma linhagem soterrada, mas viva.
Descobri então que nem todo ritual precisa de altar.
Às vezes, tudo o que precisa é de uma cama,
uma canção antiga,
e o coração disposto a ouvir o que o mundo espiritual sussurra nas entrelinhas da noite.
segunda-feira, 21 de abril de 2025
Resposta ao Tempo II
17:
Eu quis correr num caminho de pedras:
Prendi minha sandália e caí.
As coisas que vi e fiz, achei que eram certas,
mais fortes os erros que não cometi.
Deve bastar, essa é a cruz...
Mas é tão tarde, eu preciso voltar.
Quando voltares, apague a luz
Pr'eu ter certeza que vou me encontrar.
Há quanto tempo...
Que eu nem vi passar.
44:
Eu quis montar meu castelo de cartas:
Achei Rei de Espadas, perdi.
Mágoas e dores eu deixei pela estrada –
Segui meu caminho, eu não desisti.
Sei me bastar, essa é a luz,
Mas ainda sinto que vou te encontrar.
Se não voltares, marque uma cruz
no ponto exato onde vou te enxergar.
Faz tanto tempo...
E ainda assim, está.
sábado, 22 de março de 2025
Se um dia eu me for... (Desabafo)
Eu sei que vocês olham pra mim e sentem decepção. Na verdade, eu sempre senti esse peso em cima de mim desde muito pequena, sem entender muito o porquê: talvez por estar sempre sendo silenciada, por sempre ter me sentido excluída em qualquer expressão de afeto, por ter vivido pulando de casa em casa de parentes, por volta e meia ter sido esquecida na escola... Ou talvez simplesmente por ter passado a vida fazendo das tripas coração pra tentar agradar de alguma forma, sendo uma excelente aluna, amada pelos professores, conquistando as melhores notas e buscando a perfeição em tudo que me propus a fazer - mas parece que nunca foi suficiente, né? E continua não sendo até hoje, não importa o que eu faça.
Vcs lembram que eu dizia na adolescência que assim que eu fizesse 18 anos, ia dar um jeito de sair de casa e me livrar desse ambiente tóxico daqui? De um lado, violência verbal e física, além de invasão de privacidade. Do outro, total indiferença. Pois é: eu não saí de casa pra "formar família" não, eu quis FUGIR. E no desespero de sair de um buraco, não pude enxergar que eu caía em outro - mas quando finalmente enxerguei, era tarde demais e meu primeiro filho já estava a caminho.
Vocês podem achar que isso é tudo bobagem, mas por essas e outras, vivi em depressão por cerca de 30 anos. E eu pedi socorro quando eu tinha 15 anos. Pedi pra me levarem no médico porque eu sabia que eu era diferente dos amigos da minha idade, e pq eu não aguentava mais pensar em morrer TODO SANTO DIA desde os 12 anos, quando por muito pouco, quase tentei contra minha própria vida - vocês nunca souberam pq não estavam em casa e eu aproveitei pra tentar alcançar a embalagem de veneno de rato no alto do armário do banheiro. Eu já estava me esticando trepada em cima do vaso quando o telefone tocou. Era minha saudosa tia-avó com uma conversa totalmente non-sense. Ainda atordoada, eu tentava entender porque ela tinha ligado perguntando por vocês se vocês tinham saído dizendo que iam vê-la. Então ela me distraiu até vocês chegarem e desligou. Até hoje nada me tira da cabeça que foi coisa do meu Anjo da Guarda... Mesmo assim, eu não conseguia tirar da cabeça a ideia quase obsessiva de não viver mais - mas aí eu lembrava desse dia e isso me segurava por mais um dia.
E eu sobrevivi a tiro, a uma relação abusiva, uma separação difícil, um boa-noite-cinderela no dia do meu aniversário de 30 anos em que me foram introduzidos objetos que até hoje não sei bem quais foram; vi os filhos pelos quais dei minha vida indo embora, passei fome... E eu me perguntando pq eu ainda resistia. Até que entrei na faculdade e as coisas começaram a mudar. E aos poucos a depressão me abandonou e eu achei que já podia me livrar dos 19 comprimidos diários que eu tomava já que, segundo vcs mesmos, "é tudo bobagem, tá tomando remédio à toa!". Não demorou pro auge das desgraças da minha vida estourar: um surto psicótico que os obrigou a me internar. Não tenho trauma nenhum da internação apesar de não ter sido fácil, mas guardo um trauma muito grande do período de readaptação. Fiquei extremamente sensível a qualquer tipo de estresse. Tenho medo de ter uma nova crise, porque é horrível se sentir incompreendida. Por isso tento fazer tudo certo - o que não me impede de me sentir incompreendida da mesma forma.
Eu nunca fui uma pessoa de grandes luxos. Todos os dias agradeço pelo teto e por cada refeição - pq só quem já não teve o que comer de verdade, sabe o valor que qualquer grão de feijão ou arroz tem. Mas vocês já pararam pra se colocar no meu lugar??? Uma mulher da minha idade, com as minhas condições físicas e mentais, que perdeu tudo, hoje dorme na varanda da casa dos pais sob uma cabana improvisada pra aliviar um pouco a intensidade de sons e luzes; que sempre tá disponível pra cozinhar algo gostoso pra todos por prazer (inclusive a quem nem me dirige a palavra ou se lembra do meu aniversário), que está sempre à disposição pra ajudar no peso das compras, ou mesmo em ajudar em outras tarefas da casa (inclusive na limpeza, quando consigo), ao mesmo tempo em que sou solenemente silenciada, ignorada, diminuída, ainda que eu esteja falando de um assunto sobre o qual tenho respaldo porque - vejam só! - eu ESTUDEI.
Vocês devem pensar "do que adianta estudar tanto se não está trabalhando?". Deixa eu responder: no princípio porque EU ERA TROUXA; porque eu ficava preocupada de deixar VOCÊS sem meu suporte ao longo da semana. Depois parei pra pensar e vi que, pelo desrespeito que vocês têm por mim, eu certamente não sou tão necessária assim. Mas pesquisando o mercado de trabalho, as poucas chances que há pra mim na minha idade prejudicam minha saúde mental e podem me levar à uma nova crise - a não ser que eu estude mais, gostem vocês ou não. E também penso em ter um negócio próprio: já pensei em mil coisas que eu simplesmente não consigo concretizar. E sabem por quê? Por que essa armadura aqui de "mulher foda pacaralho", de "liderança nata" é apenas instrumento de sobrevivência: por dentro ainda me sinto aquela criança insegura que vai dar seu máximo, mas nunca será o suficiente pra nada nem ninguém (e que se surpreende muito - e nem sempre acredita - quando recebe elogios e declarações de admiração e afeto de outras pessoas).
E onde quero chegar com isso? Bem, não sei se vocês sabem ou entendem mas estou pra fazer uma colposcopia com biópsia, que aliás estou esperando há muito tempo pro SUS me liberar, desde o ano passado, quando meu preventivo detectou lesões nível 2 e 3 no meu colo do útero (o nível 3 é o último estágio pra se tornar um câncer). Não estou de fato preocupada, mas quero logo fazer esse exame pra saber se o câncer já me alcançou de fato - pode ser que sim e pode ser que não, mas sinceramente, às vezes torço pra que seja sim: minha vida está perdendo cada vez mais o sentido, me sinto mais mal tratada que os cães dessa casa; a única coisa que me prende ainda nesse mundo são meus filhos, mas eles já estão adultos e não precisam mais de mim - e se precisarem, eu sempre estarei a postos "do lado de lá". Também não quero mais ser um elefante branco no meio da sala de vocês. E eu acho que já deu. Não parece não, mas minha alma está cansada. É um cansaço que fica aqui dentro, roendo um buraco no peito, deixando só um rastro de vazio. Se eu me for, eu vou tranquila: fiz o que quis, da melhor forma que pude. Nunca fui perfeita, mas a Vida me ensinou que querer a perfeição é disputar ego com Deus - e quem sou eu na fila do pão, não é mesmo? Sei que serei bem recebida do outro lado - a família espiritual (ao menos ela!) nunca me abandonou e sempre segurou minhas pontas.
Então, é isso. Eu só queria que vocês soubessem mesmo - e com certeza, eu nunca conseguiria me fazer expressar porque meu pai ou falaria por cima e me interromperia, ou me ignoraria ao dar mais atenção aos vídeos do celular. Ou ainda minha genitora tentaria justificar dizendo que "não se lembra", que é tudo coisa da minha cabeça ou mesmo culpa minha. E eu não quero mais disputar nada não, sabe?...
Tô cansada, só muito cansada...
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
Apenas mais um conto de natal
Eu queria a casa um brinco, mas limpei conforme minha humanidade permitiu.
Eu queria oferecer o melhor banquete, mas tentei fazer o melhor improviso possível diante dos cortes que tivemos.
E nada disso foi pra ter o "natal dos sonhos" - até porque deixei de ser cristã há anos.
Eu também não tinha expectativas, pois hoje reconheço e aceito as disfuncionalidades da minha família: eu só queria receber bem meus filhos, como não recebia havia tempos.
E nem fizemos nada demais: bebemos, cantamos karaokê, rimos, enfim, matei a saudade.
(Ah, sim: e cantei performando "All I want for christmas is you" pra eles, porque sim. 🤭)
E quando já estávamos todos bêbados, bem alimentados, sonolentos e nos preparando pra dormir, a caçula abre a mochila e tira uma embalagem - nem prestei atenção porque eu não parava de falar (fico assim quando estou animada).
Meu filho mais velho teve que chamar-me a atenção: "ah, a gente já ia esquecer! O seu presente!".
ÃHN? PRESENTE?
Curiosa, abro o embrulho - "mas eu só queria PRESENÇA!", pensava eu. Era um hidratante de cheiro muito delicado, "capim limão e hortelã", dizia o rótulo. "É cheiro de vó", meu filho brincou, todos rimos.
Eu já estava abrindo a embalagem pra experimentar o aroma e congelei. Lágrimas me vieram aos olhos. Tomei fôlego pra explicar, pois meus filhos nada entendiam:
- Na verdade... É exatamente o cheiro da MINHA AVÓ!
Esfreguei um pouco nas mãos pra ficar cheirando o perfume da avó que me criou e faleceu há quase 25 anos. Era como se ela tivesse dado um jeito de estar presente, depois da crise de choro que tive no meu aniversário 10 dias antes, me perguntando por onde ela andava pois fazia tempo que eu não a sentia mais por perto. E ela não poderia ter reaparecido de forma mais nobre: através das mãos dos meus filhos.
Muitas vezes sentimo-nos mergulhados em solidão por fechar os olhos da alma: quantas vezes alguém que amamos não está cuidando de nós, de alguma forma?
Feliz 2025!
Axé-Shalom.
terça-feira, 19 de novembro de 2024
Neredesin?
Que te trouxe e te levou
Deixando no corpo, a marca do amor
Que ficou no ar, ilusão no ar
A chuva que esse vento traz
Faz com que me lembre mais
De todos os sonhos que a gente sonhou
Planejou demais, demais
Bem que eu podia tentar te encontrar
Mas o vento forte
Que me afastou, te levou
Te escondeu longe demais
A chuva que esse vento traz
Faz com que me lembre mais
De todos os sonhos que a gente sonhou
Planejou demais, demais
E cada vento que soprar
Pode te fazer voltar
Encher o vazio que ficou no ar
E marcou demais, me marcou demais
Me marcou demais..."
"Vamos, precisamos seguir" - ele tinha ido buscar mais informações sobre o que estava acontecendo e retornou com o tom grave de urgência na voz. Não explicou muito, mas nem precisava: eu já sabia o quanto era perigoso permanecer naquele país e o quanto era impossível voltar à nossa vidinha pacata no interior da Capadócia.
Ele então me ajudou a conduzir nossos 3 filhos pequenos e o pouco que pudemos carregar em direção à plataforma do Tünel de Istambul. Havia outros refugiados de todas as idades para todos os lados, alguns sentados pelo chão tentando se aquecer naquele inverno austero. A sensação de melancolia em deixar nossas coisas e nossa terra pra trás me inspirava a criar um poema dentro da cabeça; poema esse que eu ficava repetindo mentalmente pra não esquecer - "assim que chegarmos ao nosso destino, encontrarei um papel pra escrever...". Eu tinha necessidade de registrar, se pudesse ao mundo, a dor que todo aquele conflito estava causando não só a mim e minha família, mas a milhares de pessoas, mas não havia como.
A caminho da plataforma, eu conduzia as crianças maiores em silêncio, mantendo o olhar no chão. Eu ainda podia sentir a mão de meu marido e seu grande vulto pelas minhas costas, me conduzindo. Como eu o admirava: e talvez por isso eu não conseguia fitar seu rosto. Eu sabia que, em algum momento daquela balbúrdia, precisaríamos nos separar momentaneamente, depois de uma vida inteira juntos (visto que nos conhecíamos desde a infância).
E isso me fazia segurar o choro na garganta.
Acordei assustada, curiosa e com a música "Wish you were here" (Pink Floyd) grudada na cabeça. Lembrava das roupas pesadas de inverno, dos sentimentos vívidos de amor e de angústia, do clima de guerra no entorno. Foi aí que eu resolvi buscar alguns detalhes na internet unindo peças do quebra-cabeça com ajuda do Google e do ChatGPT: tudo se confirma que a cena se passou na Turquia, durante a sua Guerra de Independência, no início do século XX. E nem era a primeira vez que eu sonhava com esse país (do qual sempre conheci quase nada): 4 meses antes eu tinha sonhado com a "minha adolescência" na Capadócia, época em que "meu marido" e eu nos apaixonamos (e vivemos um amor proibido, aparentemente por diferenças religiosas – e pelo visto, vencemos as resistências).
Desde que me conheço por gente, sempre senti uma profunda saudade de algo ou alguém que eu nunca soube muito bem sequer explicar. Me lembro de acordar chorando de madrugada entre 3 e 5 anos por sonhos que se repetiam e chorar pelo mesmo sentimento ao ouvir a música citada de Verônica Sabino ou o tema de Fievel (como se eu entendesse a letra) sentindo uma enorme angústia, um buraco no peito. Eu olhava pela janela à noite e pedia às estrelas que, por favor, me buscassem de volta – mas essa sensação foi sendo apagada conforme fui crescendo e tive que administrar outras questões da vida. Talvez minha psicóloga tivesse razão: tudo isso talvez fosse apenas sintoma de não conseguir me encaixar numa família disfuncional. Vida que segue, né?
E eu achava mesmo que já tinha superado essa sensação depois de anos de terapia e uma vida inteira de todo tipo de experiências (de vida, relacionamentos, espirituais, etc.), mas depois desse último sonho, não consigo mais fechar os olhos sem ver novamente o cenário no Tünel de Istambul, sem sentir a ausência do caloroso e enorme vulto daquele companheiro com o qual compartilhei aquele momento, sem me perguntar se conseguiremos nos encontrar novamente. E voltei a sentir esse buraco no meio do peito mais uma vez, essa saudade doída que aquela pequena eu de 4 anos sentia que só tinha sido preenchida há alguns anos, quando finalmente encontrei meu "Abraço-Casa" - mas do qual a Vida me afastou, mais uma vez (provavelmente por revivermos mágoas de outras existências).
Não posso afirmar com certeza que se tratam da mesma pessoa nas 2 encarnações, mas tem coisas que acontecem que são fortes demais pra refutar...
Curioso: pareço estar fechando um ciclo de 40 anos, afinal, por que isso tudo está voltando agora, que estou fazendo 44?
Axé-Shalom-Görüşürüz!
quinta-feira, 1 de agosto de 2024
Só queria fazer poema
Hoje eu só queria fazer poema.
Olhar para o céu e nele encontrar as palavras certas,
Aquelas de preencher o coração de alguém.
Saber escrever, quem sabe, uma história de amor eletrônica,
De caracteres contados e emoções infindas.
Eu só queria escrever poema
E relê-lo tantas e tantas vezes até acreditá-lo vivo.
Talvez sobre mim. Talvez sobre você.
Eu só queria saber escrever emoções das quais ninguém ainda escreveu.
Mas quem sou eu nesse Universo
Senão um mero sonho daquilo que escreverei?
(Dannie Machado.)