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sábado, 15 de setembro de 2012

A Velha Infância

Já eram trinta dias sem se ver. Mas, mais que isso, o momento era especial porque ela já tinha colocado seus sentimentos na mesa. Ele continuava uma incógnita.

Ela chegou mais cedo e aproveitou prá checar seus emails no celular. Quando a porta do teatro se abriu, todos olharam ao mesmo tempo. Inclusive ela. Ele também a olhou rapidamente antes do primeiro passo adentro, e ambos desviaram o olhar. Era necessário ainda um tempo pro coração se acalmar. Ela ainda se levantou prá tentar abraçá-lo amigavelmente, ele recebeu o gesto meio sem jeito. Talvez ainda não estivesse pronto. Ou talvez - temeu ela - tudo iria mudar entre eles. Para pior.

Ela emprestara um caderninho e sua caneta a alguém, e ela se espantou quando percebeu que seus pertences estavam nas mãos dele antes de se retirarem. "Vem! Suas coisas estão aqui!", balançou-as no alto para que ela visse. Buscavam agora o resto do grupo pelo prédio. Já desciam as escadas quando ele tentou erguê-la no alto. Apesar dos protestos, ele conseguiu sentá-la no seu braço e carregá-la escada abaixo. Ele a pôs no chão e ela ainda protestava. Ele ria dela. E ela riu com ele porque, afinal, nada tinha mudado entre eles. Alívio.

Finalmente reencontraram os outros e enquanto todos falavam, ele rabiscava e desenhava no caderninho. Olhava por um ângulo, por outro, parecia insatisfeito e arrancava a folha. Ao fechar o caderninho, ele deixou cair um pequeno papel, que ela pensou que era dela. Ela se distraiu com isso e ao se certificar que não era dela, ele logo devolveu o caderninho já fechado, pedindo desculpas. Ela nem entendeu o porquê, mas aceitou-as. Ele então a desafiou a acompanhá-lo numa região da cidade bem barra pesada. Ele não sabia que ela cresceu no pé do morro, desviou de esgotos a céu aberto durante a infância. Mas ela não quis estragar o seu momento professoral. Aceitou o desafio.

Deram uma volta na área. Para ele, era um choque de realidade nela. Para ela, era apenas mais do mesmo que sempre a deprimia. Pararam num beco escurecido pra conversar, e logo passou por eles um homem de meia-idade, bem vestido, com sua pasta executiva. Enquanto ambos conversavam, o homem parou mais à frente e, em cima de um balcão, espalhou um pó branco. Ela desviou o olhar, mas não por ter se chocado. Ela estava extremamente espantada com o fato de já ter sonhado com aquele cenário antes. E lembrava mais: no sonho que tivera anos antes, havia um fusca laranja, o que não cabia ali naquela realidade.

Ele a despertou de sua epifania prá irem embora. No ponto de ônibus, enquanto tagarelavam e riam, ele repentinamente puxou-a para si num gesto ágil e a abraçou. Silêncio. O mundo sumira em volta e ambos estavam em paz. Ligeiramente entorpecida, ela ainda tentou erguer os lábios prá ele, mas ambos se deram conta que seria inoportuno. Num gesto de compreensão ele fazia carinho em seus cabelos, enquanto ainda envoltos no abraço. O ônibus dela enfim chegou. Ele a conduziu, como um gentleman, ao ônibus e enquanto ela se ocupava em catar os degraus do veículo ele sussurrava algo que ela não conseguiu compreender.

Ela subiu. Pagou sua passagem e ao sentar-se, teve um estalo: buscou o caderninho e numa das folhas pôde finalmente ver o grande coração que ele desenhou com mão firme, preenchido em seus detalhes. Logo abaixo do desenho uma seta para a frase do Betinho: "O que somos é um presente que a vida nos dá. O que seremos é um presente que daremos à vida". Ela sorriu, pressionou o caderninho contra o peito. Se sentia aquela menininha que fora um dia, que tecia romances na imaginação. Ela se deu conta que, enfim, nunca tinha deixado de ser aquela menininha.

No dia seguinte, ela é acordada por aquela que fora seu ombro amigo ouvindo a saga do dia anterior. A amiga estava eufórica, porque, depois dela ter publicado suas reflexões sobre a própria infância, ele revelou uma foto sua de quando era menino. Apenas coincidência? Ou será que ele se sentia como ela?...

Ela estava confusa, não sabia o que pensar. Mas seu coração palpitava alegre. Trocas de declarações, bilhetes, desenhos, como duas crianças do primário. O frescor e a pureza do amor infantil, ainda que maduro... Alguém os entenderia? Ninguém mais entende o que é puro nos dias de hoje...

Admirando a foto que a amiga mostrou, percebeu que para além do sorriso dele, do olhar alegre, havia um carro na foto: lá estava o fusca laranja.
"Entre borrachas e apontadores
Mora o meu grande amor

Colei seu nome com várias cores

No livro que ela me emprestou..."
Shalom!
Shanah Tovah Umetukah! 

Um comentário:

Jeanne Geyer disse...

Olá Dannie, o nome do grupo é Vida Bipolar, bem legal. Hoje na corrida, venho te deixar um abraço.

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